A Quarta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) decidiu, por unanimidade, absolver três moradores de Balneário Piçarras, no Litoral Norte de Santa Catarina, da acusação de tráfico de drogas. A decisão foi tomada na última quinta-feira (8), durante o julgamento de um recurso apresentado pela defesa da família.
Os réus são Carlos Alberto Koerich, sua esposa Lucinara Bertoldo Koerich e o sogro dele, Marcelo Luiz Bertoldo. Eles haviam sido presos em maio de 2025, durante a Operação Kryos, da Polícia Federal, sob a suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho.
Segundo a investigação, Carlos e o sogro teriam ido ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para receber uma carga de dez toneladas de maconha. Lucinara acompanhava as negociações por mensagens de texto. A droga,然而, nunca foi apreendida.
De acordo com a Polícia Federal, o caminhão que transportava a maconha teria sido liberado por policiais civis do Rio mediante pagamento de propina, e a carga teria chegado ao destino final. Essa versão foi apresentada pela PF nas operações Drake e Corsário, que prenderam agentes públicos envolvidos no esquema.
No julgamento da apelação, os desembargadores entenderam que, sem a apreensão da droga, não há prova material suficiente para condenar os três por tráfico. O relator, desembargador Luiz Márcio Victor Alves Pereira, destacou que o único vestígio encontrado – 1,3 grama de maconha no baú do caminhão – é insuficiente para embasar uma condenação por tráfico, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Por outro lado, a câmara manteve a condenação por associação para o tráfico. Para os desembargadores, os relatórios da PF, os dados extraídos de celulares e contas na nuvem, além de laudos periciais, comprovam que os três se associaram ao Comando Vermelho para receber a carga. A ligação com a facção criminosa e o transporte interestadual da droga foram considerados circunstâncias agravantes no cálculo das penas.
Carlos Alberto Koerich também teve mantida a condenação por corrupção ativa, por ter oferecido dinheiro aos policiais civis para liberar a carga. De acordo com a investigação, ele chegou a oferecer R$ 300 mil e a entrega de um informante, o chamado “X9”, e depois as negociações teriam subido para valores entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões.
Com a absolvição do tráfico, as penas foram reduzidas. Carlos, que havia sido condenado a 15 anos, 3 meses e 6 dias de prisão, agora cumpre 6 anos e 9 meses. Lucinara e Marcelo, que pegaram 12 anos, 7 meses e 6 dias cada, tiveram as penas reduzidas para 4 anos e 1 mês. Todos continuam em regime fechado, pois o tribunal negou o direito de recorrer em liberdade.
Em seus depoimentos, os três negaram qualquer envolvimento com o tráfico. Carlos afirmou que trabalha com compra e venda de veículos e empréstimos, e que mora de aluguel em Balneário Piçarras. Lucinara disse que faz micropigmentação e cuida de crianças, e que nunca esteve no Rio de Janeiro. Marcelo declarou ser pescador desde jovem e passar a maior parte do tempo no mar.
A investigação teve início após a Polícia Rodoviária Federal (PRF) parar o caminhão frigorífico no Sul Fluminense, no dia 8 de agosto de 2023. O veículo, que tinha nota fiscal de frango congelado, era escoltado por viaturas da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Polícia Civil do Rio. Os policiais civis recusaram a oferta de cães farejadores da PRF e seguiram viagem.
No dia seguinte, a PRF parou novamente o mesmo caminhão, com o mesmo motorista, no sentido São Paulo. O motorista, que deveria estar preso, contou o que havia ocorrido e entregou seu celular. No baú, foi encontrado apenas um resíduo de 1,3 grama de maconha. Esse fato deu origem às operações Drake, Corsário e Kryos.
A Operação Drake, em outubro de 2023, prendeu quatro policiais civis e um advogado. A Corsário, em maio de 2024, prendeu mais um policial civil, um policial militar e outro advogado. Já a Kryos, em maio de 2025, cumpriu mandados de prisão contra suspeitos de enviar e receber a carga, no Paraná e em Balneário Piçarras.
Os policiais e advogados envolvidos respondem apenas por corrupção em duas ações na Justiça de Resende (RJ), ainda sem sentença. Em maio de 2025, o STJ trancou a acusação de tráfico contra um dos policiais pelo mesmo motivo – a droga nunca foi apreendida – e a decisão foi estendida aos demais, que foram soltos.
O Ministério Público do Rio recorreu, e o recurso está na pauta virtual da Sexta Turma do STJ entre 29 de outubro e 5 de novembro. Os três catarinenses pediram para ser incluídos naquela decisão, e o pedido será analisado juntamente com o recurso do MP. Ainda cabe recurso contra a decisão do TJRJ.
A defesa da família, conduzida pelo advogado Osvaldo José Duncke, sustentou que a ausência da droga apreendida impedia a condenação por tráfico, tese acolhida pelos desembargadores. No entanto, a associação para o tráfico foi mantida com base em outros elementos probatórios.
O caso segue em tramitação, e os réus permanecem presos preventivamente. A decisão do TJRJ pode ser revista pelo STJ, que analisará o recurso do Ministério Público e o pedido da defesa dos catarinenses.
Fonte: Jornal Razão





















