Até que ponto a tecnologia pode alterar a essência do ser humano? E, à medida que as máquinas se tornam mais parecidas com as pessoas, será que os humanos estão se tornando mais semelhantes a elas? Essas indagações motivaram a exposição “Sophias”, do escultor catarinense Osnaldo Oliveira, inaugurada nesta quarta-feira (14) na Galeria de Arte Ernesto Meyer Filho, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).
Com curadoria de Eveline Klein, a mostra apresenta esculturas feitas em aço inox e outros metais, que investigam a relação entre humanidade, tecnologia, emoções e identidade digital. A exposição é a sexta selecionada pelo Concurso Artístico de Seleção de Projetos para Ocupação Artística da Galeria em 2026 e pode ser visitada gratuitamente até 23 de outubro.
Inspirado na robô humanoide Sophia, famosa por imitar expressões faciais humanas, o artista dedicou dois anos à criação das obras. A ideia surgiu da observação das mudanças provocadas pelo avanço tecnológico e da dificuldade crescente em distinguir o que é humano do que é artificial. “Vivemos um momento único na história das máquinas, dessa relação entre o homem e a tecnologia. Hoje, quando atendemos uma ligação ou acessamos serviços, precisamos provar à máquina que somos humanos. Isso já nos faz refletir sobre o que realmente significa ser humano”, afirmou Oliveira.
A exposição está dividida em dois grupos de esculturas. O primeiro traz figuras femininas construídas em aço, com linhas precisas, que remetem à interação entre humanos e máquinas e aos padrões estéticos atuais. O segundo reúne obras criadas a partir da sobreposição e modelagem de metais, que tratam das emoções humanas e de como as pessoas constroem e exibem suas identidades nas redes sociais.
Para o escultor, a mostra também convida o público a questionar a autenticidade das relações no ambiente digital. “Quando vemos pessoas mostrando o dia a dia nas redes, muitas vezes aquilo não representa a realidade. O verdadeiro é o que sentimos agora, o contato entre as pessoas, e não necessariamente o que alguém escolhe mostrar na internet”, declarou.
Além das transformações nas relações sociais, Oliveira propõe uma reflexão sobre os limites da inteligência artificial e os impactos que o desenvolvimento tecnológico pode causar nos costumes, nas atividades humanas e na própria motivação das pessoas. “Quero provocar esse pensamento, despertar a consciência de cada um. Será que estamos realmente preparados para o que está por vir? Até onde vai essa mistura entre homem e máquina? Se as máquinas fizerem tudo, onde estará nossa motivação, nossa busca por novos desafios?”, questionou.
Todas as esculturas representam figuras femininas, escolha que, segundo o artista, também homenageia as mulheres e sua importância para a humanidade. “São todas Sophias porque a mulher representa a vida. De certa forma, também homenageio a mulher, pois sem ela não estaríamos aqui”, explicou.
A escolha do aço inox como principal matéria-prima foi intencional. Acostumado a trabalhar com resina e fibra de vidro, Oliveira buscou no metal a resistência e o impacto visual necessários para expressar suas inquietações. “Queria mostrar o impacto desse material, forte, resistente e difícil de trabalhar, em uma representação tão bonita, feminina e delicada como a mulher. Esse contraste foi o que procurei trazer para as esculturas”, ressaltou.
Com trajetória reconhecida no Sul do Brasil, Osnaldo Oliveira dedica-se à produção de esculturas de grandes proporções, explorando técnicas de modelagem, fundição e construção em metal. Professor de arte-terapia e integrante da Associação Catarinense de Artistas Plásticos, tem obras em coleções e espaços públicos. Entre seus trabalhos estão “Árvore da Dança”, criada em 2015 a pedido do Instituto de Dança Balé Bolshoi, e “Il Centenário”, monumento feito em 2020 para os 100 anos de Chapecó. Em 2007, representou o Brasil na II Exposição Contemporânea da Galeria Adamastor, em Óbidos, Portugal. Seu trabalho também foi reconhecido pela Fundação Catarinense de Cultura, por meio da Lei Aldir Blanc, em 2020. Em 2023, recebeu do Governo de Santa Catarina o título de Mestre Artesão.
Fonte: Assembleia SC





















