Proibição das bets faz sites clandestinos dispararem e abre
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ECONOMIAProibição das bets faz sites clandestinos dispararem e abre rombo bilionário no futebol

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A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as apostas de quota fixa no Brasil, por meio da Medida Provisória 1.394/2026, assinada em 25 de setembro, provocou uma onda de efeitos políticos e econômicos em poucos dias. A medida, que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso para ter validade definitiva, já resultou em forte repercussão eleitoral, reação dos clubes de futebol, perda potencial de bilhões em publicidade e arrecadação, além de uma rápida expansão de sites clandestinos.

O dado mais surpreendente veio da plataforma Bet Legal, que monitora domínios relacionados a apostas. No dia do anúncio, às 18h, o sistema havia identificado 295 sites não autorizados. Até a noite de domingo, 27 de setembro, o total saltou para 710 — um crescimento de 141% em apenas dois dias, com 415 novos domínios clandestinos surgidos após a proibição. Somente no sábado, foram 294 novas páginas. Levantamentos posteriores apontaram 543 novos endereços até segunda-feira, mas o número de 415 é o recorte com metodologia mais detalhada. Paralelamente, o governo afirma ter derrubado 506 sites suspeitos e intensificado a vigilância de grupos de Telegram que reuniam mais de 212 mil integrantes.

O paradoxo é evidente: a proibição elimina as empresas que seguiam as regras brasileiras, mas não acaba com a demanda por apostas. Parte dela pode migrar para operadores clandestinos, que não recolhem impostos, não exigem controles de identidade e não obedecem a mecanismos de proteção ao apostador. Esse movimento ameaça trocar um mercado problemático, porém fiscalizado e tributado, por outro sem qualquer controle.

Nenhum setor sentiu o impacto de forma tão imediata quanto o futebol. Em 2025, as casas de apostas investiram aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios nos clubes da Série A, o equivalente a quase um terço de toda a receita comercial da elite do futebol brasileiro e a cerca de 7,2% da receita total desses clubes. Nos contratos de patrocínio máster atualmente identificados, 14 dos 20 clubes da Série A concentram pelo menos R$ 910 milhões anuais provenientes de bets. A conta pode ser ainda maior com placas nos estádios, ativações comerciais, publicidade e contratos indiretos. Flamengo, Corinthians e Palmeiras estão entre os mais expostos, e há milhares de uniformes já fabricados com marcas que não poderão mais ser exibidas.

A reação foi dura: clubes das séries A, B, C e D articularam um boicote a uma reunião com o governo, que acabou cancelada. Dirigentes reclamam principalmente de não terem sido consultados antes da decisão e consideram insuficientes as alternativas apresentadas até agora.

O impacto ultrapassa o esporte. Segundo dados de mercado do Ibope citados pelo UOL, apenas 15 grandes empresas de apostas investiram aproximadamente R$ 3 bilhões em publicidade em 2025, distribuídos entre televisão, rádio, internet, influenciadores, sites, agências e patrocínios. A MP também proibiu a publicidade realizada por influenciadores digitais. Não há levantamento confiável sobre quanto os criadores de conteúdo perderão especificamente, mas um caso dá dimensão dos valores: um contrato entre Virginia Fonseca e a Blaze tinha valor de R$ 100 milhões. A influenciadora já havia anunciado o rompimento antes da MP, portanto esse contrato não pode ser contado como prejuízo da proibição, mas serve para demonstrar a escala do mercado. O governo anunciou que influenciadores que continuarem promovendo plataformas ilegais poderão responder administrativa, civil e criminalmente.

O impacto fiscal também será relevante. Em 2025, primeiro ano completo do mercado federal regulado, a Receita Federal arrecadou aproximadamente R$ 9,16 bilhões em tributos vinculados às bets. De janeiro a agosto de 2026, entraram mais R$ 6,42 bilhões. Somados, são cerca de R$ 15,58 bilhões em arrecadação desde o início efetivo do mercado regulado, em janeiro de 2025. Há ainda a outorga de R$ 30 milhões paga por cada empresa autorizada, válida por cinco anos. As 85 empresas autorizadas desembolsaram aproximadamente R$ 2,55 bilhões por essas licenças. Somando impostos e outorgas — rubricas diferentes —, o Estado recebeu algo em torno de R$ 18 bilhões relacionados ao mercado regulado.

O próprio governo já incorporou a perda fiscal às projeções. Segundo cálculo usado no projeto de Orçamento de 2027, o encerramento das bets representa redução estimada de aproximadamente R$ 6,8 bilhões por ano na arrecadação federal. Esse valor pode variar conforme faturamento, impostos incidentes e eventual manutenção ou derrubada da MP pelo Congresso ou Judiciário. Existe ainda a perda das destinações sociais previstas na regulamentação anterior, já que parte da receita bruta das empresas era direcionada a esporte, segurança, educação e outras áreas. O Ministério da Fazenda previa ainda PIS/Cofins, ISS, IRPJ e CSLL sobre a atividade.

Politicamente, o governo encontrou uma pauta popular. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada antes da assinatura da MP apontou que 75% dos entrevistados eram favoráveis à proibição das bets. Outra pesquisa, da Quaest, realizada entre 24 e 27 de setembro, mostrou 62% de aprovação à restrição das apostas online. Nas redes sociais, o tema explodiu, com milhões de publicações e dezenas de milhões de interações. A campanha governista passou a tratar a medida como uma de suas principais bandeiras na reta final. Os adversários evitam combater frontalmente uma proposta popular, mas acusam Lula de oportunismo eleitoral, lembrando que seu próprio governo regulamentou e estruturou o mercado anteriormente.

Até agora, não é possível provar que a proibição tenha produzido ganho eleitoral específico para Lula. A última Quaest registrou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 34% no primeiro turno e empate em 42% no segundo. Já a Atlas/Bloomberg divulgada nesta segunda-feira (29) mostrou Lula com 45,3% e Flávio com 42,2% no primeiro turno, enquanto no segundo Flávio marcou 47,7% e Lula 47,6% — empate técnico. Como os períodos de coleta começaram antes ou coincidiram com a edição da MP, não é metodologicamente seguro atribuir qualquer oscilação exclusivamente às bets.

A proibição produz uma contradição que deverá acompanhar a discussão no Congresso. O governo elimina um setor que considera responsável por endividamento, ludopatia e transferência excessiva de renda das famílias, mas abre mão de bilhões em impostos e desorganiza contratos de clubes, empresas de mídia, agências e influenciadores. E surge um terceiro problema: o apostador não necessariamente desaparece junto com a bet legal. Os 415 novos sites clandestinos encontrados em apenas dois dias oferecem o primeiro sinal desse risco. Se uma parcela relevante dos apostadores migrar para essas plataformas, o Brasil poderá trocar um mercado problemático, porém fiscalizado e tributado, por outro sem impostos, sem mecanismos de proteção ao consumidor e muito mais difícil de controlar. É justamente esse resultado — e não apenas o impacto eleitoral imediato — que determinará se a proibição será lembrada como solução para o problema das bets ou como o início de uma nova expansão do mercado clandestino.

Fonte: Postagem Manual

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