Presentes de luxo de lobista a assessor de Lula levantam suspeitas sobre conflito de interesses - GuaraNews
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RELAÇÕES NO PLANALTOPresentes de luxo de lobista a assessor de Lula levantam suspeitas sobre conflito de interesses

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Novas mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger ampliaram os questionamentos sobre sua proximidade com integrantes do governo Lula e levantaram uma questão sensível sobre conflito de interesses dentro da administração federal.

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles e repercutida por outros veículos nesta quinta-feira (24), Roberta presenteou Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, com um relógio Cartier de ouro avaliado em R$ 66 mil, uma obra do artista Antonio Veronese estimada em R$ 82,9 mil, ingressos para shows e ainda bancou sua festa de aniversário. Ela também teria dado um anel à mulher do assessor.

Barbosa foi secretário-executivo do Ministério da Saúde entre 2023 e março de 2025, ocupando o segundo posto mais importante da pasta. Depois disso, passou a atuar como assessor da Presidência da República dentro do Palácio do Planalto.

Os presentes descritos nas mensagens foram feitos durante o período em que Roberta mantinha intensa interlocução com integrantes do governo e atuava na representação de interesses privados junto à administração pública.

Cartier, quadro e festa

Segundo as mensagens reveladas pela imprensa, Roberta comprou em abril de 2024 um Cartier Tank de ouro, com pulseira de couro, por R$ 66 mil. Nas conversas, o relógio é tratado como um “mimo” destinado a Berger.

Em dezembro daquele ano, a lobista também teria dado ao assessor uma obra de Antonio Veronese adquirida por 13 mil euros, equivalentes a aproximadamente R$ 82,9 mil na cotação da época.

Outro episódio ocorreu em 9 de novembro de 2024.

Roberta teria organizado e custeado a festa de aniversário de Berger em um camarote do Estádio Mané Garrincha, durante apresentação de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Nas mensagens, ela relata a preparação de bebidas para a comemoração. Posteriormente, Barbosa agradeceu pela festa, classificada por ele como “linda” e “impecável”.

Também há registros de ingressos para apresentação de Paul McCartney e de um presente destinado à mulher de Berger.

Relação ia além da amizade

O aspecto politicamente mais sensível da revelação não é apenas o valor dos presentes.

Reportagens anteriores já haviam indicado que Roberta frequentava o Ministério da Saúde e alegava possuir capacidade de intermediar a liberação de recursos federais para estados e municípios.

Segundo pessoas que trabalharam na pasta, ela mantinha encontros frequentes com Swedenberger Barbosa e apresentava-se como alguém com acesso privilegiado à estrutura decisória do ministério.

A própria reportagem que revelou os presentes afirma que Berger e Roberta atuavam juntos em tratativas envolvendo recursos da Saúde destinados a estados e municípios.

É justamente essa sobreposição entre relações pessoais, presentes de elevado valor e atuação profissional da lobista que passa a exigir esclarecimentos adicionais.

Não há, até o momento, prova pública de que Barbosa tenha tomado alguma decisão específica em troca dos presentes.

Também não existe conclusão de investigação afirmando que relógio, quadro, ingressos ou festa tenham representado propina.

Mas a legislação federal estabelece limites claros para esse tipo de relacionamento.

Regra federal proíbe presente de interessado em decisões

O Decreto nº 10.889/2021, que regulamenta as relações entre agentes públicos e representantes de interesses privados, define como “presente” qualquer bem, serviço ou vantagem oferecido por quem tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual ele participe.

A Controladoria-Geral da União afirma expressamente que agentes públicos não podem receber presentes de pessoas que tenham interesse em suas decisões — mesmo quando exista amizade pessoal entre as partes.

Brindes permitidos são aqueles de baixo valor econômico e distribuídos de maneira generalizada.

Um relógio de R$ 66 mil e uma obra de quase R$ 83 mil evidentemente não se enquadram nessa definição.

A questão jurídica central, portanto, passa a ser outra: Roberta possuía interesses em decisões ou atos administrativos sobre os quais Berger tinha capacidade de influência?

Se a resposta for positiva, os presentes podem gerar questionamentos éticos e administrativos independentemente da existência ou não de crime.

Roberta é investigada por tráfico de influência

A revelação ocorre num momento em que Roberta Luchsinger já é investigada em diferentes inquéritos relacionados à suspeita de tráfico de influência dentro do governo federal.

Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que ela apresentava Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, como seu “sócio” em conversas com terceiros. Em depoimento à PF, porém, Roberta disse que a relação entre eles era apenas de amizade. Não há registro público de sociedade empresarial formal entre os dois.

Outros diálogos analisados pela PF também envolvem intermediações empresariais no Ministério da Saúde e contatos com pessoas da cúpula do governo.

Roberta ainda aparece em mensagens relatando acesso ao Palácio do Planalto, à residência presidencial e a voos da FAB. Lula declarou em agosto que não conhece a lobista, afirmou nunca ter conversado com ela e chegou a chamá-la de “pilantra”.

Outros assessores também aparecem

Swedenberger não é o único integrante da estrutura presidencial citado nas mensagens.

A secretária pessoal de Lula, Cláudia Troiano, aparece em conversas com Roberta e teria recebido ingressos, roupas e uma peça de joalheria. Segundo a apuração, Roberta também se hospedou no apartamento da lobista em São Paulo.

Em outra frente, a PF encontrou mensagens envolvendo o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, relacionadas à compra de joias e a um quadro estimado em até 100 mil euros. A defesa dele nega que tenha recebido obras de arte ou bens de valor.

O conjunto das informações começa a desenhar um padrão que vai além de relações pessoais esporádicas.

A pergunta que precisa ser respondida

Presentear alguém não constitui, por si só, crime.

Manter amizade com um agente público também não.

O problema surge quando uma pessoa que atua para abrir portas a interesses privados oferece bens e vantagens de alto valor exatamente a servidores ou assessores com capacidade de influenciar decisões públicas.

É por isso que o caso precisa ser examinado não apenas pelo valor dos presentes, mas pela cronologia das decisões administrativas tomadas naquele período.

Quais empresas ou clientes Roberta representava?

Que pedidos foram apresentados ao Ministério da Saúde?

Swedenberger participou dessas decisões?

Houve liberação de recursos, contratos ou benefícios após essas interações?

Os presentes foram declarados, recusados ou comunicados aos órgãos de ética?

Essas respostas determinarão se a relação ficará restrita ao campo da amizade e da inadequação ética ou se poderá adquirir relevância administrativa ou criminal.

Até a publicação das revelações, a Presidência da República não havia apresentado explicações públicas detalhadas sobre os presentes atribuídos a Roberta.

E é justamente essa explicação que se torna necessária.

Quando alguém que atua profissionalmente para influenciar decisões governamentais distribui relógios, obras de arte, joias, ingressos e festas a pessoas situadas no núcleo do poder, a transparência deixa de ser opção e passa a ser obrigação institucional.

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