De um rancho com uma bomba a 72 anos de história: Posto Maiochi atravessa três gerações em Guaramirim - GuaraNews
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HISTÓRIA E TRADIÇÃODe um rancho com uma bomba a 72 anos de história: Posto Maiochi atravessa três gerações em Guaramirim

Posto Maiochi quando ainda usava a bandeira Texaco, duas décadas depois do início das atividades. Até hoje está no mesmo lugar e gerido pela mesma família. Foto: acervo da família.

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Quando os primeiros litros de gasolina começaram a ser vendidos, pelos Maiochi, em um pequeno rancho na Rua 28 de Agosto, Guaramirim era um município recém-emancipado, as principais ligações rodoviárias da região eram estradas de terra e possuir um automóvel ainda estava muito distante da realidade da maioria das famílias. Setenta e dois anos depois, naquele mesmo endereço, continua funcionando o Posto Maiochi.

Entre uma época e outra estão três gerações de uma mesma família. Primeiro, Genuíno Maiochi, responsável pela aquisição do pequeno ponto de abastecimento e pela consolidação inicial do negócio. Depois, seu filho Siro Jurandir Maiochi, que assumiu a administração do empreendimento, em 1978. Desde 1996, a condução está nas mãos do neto do fundador, Vinícius Jurandir Maiochi.

A empresa atravessou profundas mudanças no município, no transporte e no próprio mercado de combustíveis. Passou da época em que uma única bomba de gasolina era suficiente para atender os veículos que cruzavam a cidade às exigências de um mercado moderno, altamente regulado e competitivo. Hoje, consolidado no centro de Guaramirim, o Posto Maiochi ainda está no mesmo local há 72 anos.

A permanência no mesmo ramo e sob o comando da mesma família por mais de sete décadas transforma o posto em mais do que um estabelecimento comercial. Sua trajetória é também uma janela para observar a evolução de Guaramirim, especialmente a transformação dos caminhos de terra em rodovias, o crescimento do transporte rodoviário e a expansão econômica de uma cidade que havia conquistado sua emancipação política apenas cinco anos antes do marco empresarial de 1954.

Antes do posto, um bar, um caminhão e algumas tentativas

A história, entretanto, começou antes de 1954.

Genuíno Maiochi. Foto: acervo da família.

A memória preservada pela família e relatada por Vinícius Jurandir Maiochi e corroborada por sua Tia Áurea Maiochi, mostra que Genuíno Maiochi já vivia e empreendia em Guaramirim antes da criação formal da empresa ligada ao posto.

Ele veio de Massaranduba, mais precisamente da localidade de Campinha, onde a família vivia principalmente da agricultura, com destaque para o cultivo do arroz. Inquieto diante das limitações daquela atividade e disposto a buscar outras possibilidades, Genuíno deixou o meio rural e resolveu tentar a vida comercial em Guaramirim.

Veio de carroça. Primeiro ele o filho mais velho Siro (já falecido) e o cunhado Ernesto Pisetta. Logo depois vieram a esposa Rosa Pisetta Maiochi e outros dois, Áurea e Erivelto. A família se completou, depois, em Guaramirim, ao longo dos anos com os nascimentos de Nívea (que faleceu aos dois anos), Isaltina, Írio Carlos (Calito – já falecido) Ailton (Ito), Rosa Nívea e Idalécio (já falecido).

Sua primeira experiência conhecida foi um bar.

Genuíno teria construído o próprio imóvel onde instalou o estabelecimento, em uma área central e já importante para a pequena cidade da época: em frente à Igreja Matriz e ao lado da Escola Almirante Tamandaré.

O bar, porém, não alcançou o resultado esperado.

O prédio permaneceria na memória dos guaramirenses por outro motivo. Depois, passou a ser ocupado por Bertholdo Enke e sua esposa, conhecida como Dona Traude, que instalaram ali o Açougue Enke. O estabelecimento acabou se tornando uma referência urbana bastante conhecida por gerações de moradores, facilitando hoje a identificação do lugar onde Genuíno realizou uma de suas primeiras experiências comerciais.

Depois do bar, veio uma nova tentativa.

Em seguida a família mudou-se para onde hoje fica a rua Genovena Pisetta. Lá a família estabeleceu-se na agricultura, plantando arroz e cultivando outros produtos para o consumo. Mas o pai perseguia novas alternativas de empreendimento.

Genuíno comprou um caminhão e começou a realizar viagens para o Norte. Áurea conta que ele chegava de viagem e trazia o resultado das viagens que era guardado em casa, pois não havia bancos na época. Mais uma vez, porém, o negócio não prosperou como imaginava.

A sequência desses acontecimentos ajuda a afastar uma visão romantizada de que o empreendimento de sucesso nasceu de uma decisão certeira tomada de uma única vez. Antes de chegar ao posto de combustíveis, houve experiências, tentativas e atividades que não produziram o resultado desejado.

Casa de apoio do Senhor Ildo Corrrêa, que ficava ao lado do pontoda abastcimento.Foto: acervo da família.

Foi somente depois delas que surgiu a oportunidade que mudaria a trajetória da família.

Genuíno adquiriu um pequeno ponto de abastecimento existente na Rua 28 de Agosto, que deve ter pertencido a Ildo Corrêa e que morava ao lado do ponto de abastecimento. Justamente no local onde o Posto Maiochi permanece até hoje. A estrutura dificilmente poderia ser comparada ao que atualmente se entende por um posto de combustíveis.

Era basicamente um rancho e uma bomba de gasolina. A casa de Ildo Corrêa, segundo Áurea Maiochi, serviu de base de apoio, ate que estruturas adequadas fossem construídas.

Não havia a diversidade de combustíveis, serviços e estruturas que hoje caracterizam esse tipo de estabelecimento. Naquele primeiro momento, vendia-se gasolina.

O registro histórico mantido pela própria família situa em 29 de março de 1954 a fundação da Genuíno Maiochi & Filhos Ltda., na Rua 28 de Agosto, em Guaramirim.

A data deve ser entendida como o grande marco empresarial da história do Posto Maiochi. A trajetória empreendedora de Genuíno em Guaramirim, porém, como demonstra o relato de seu neto, havia começado antes.

Local onde funcionoi a Loja de tecidos da famiia Maiochi. Foto: acervo da família.

Logo em seguida Genuíno abriu uma loja de tecidos, na esquina de rua 28 de agosto com a João Butschardt. Lá a esposa Rosa e a filha Áurea trabalhavam, junto com uma jovem que mais tarde se tornaria uma grande empreendedora do município Leonora Guesser (mais tarde Leonora Guesser Klein).

Uma Guaramirim de estradas de chão e viajantes pelo caminho

Rua 28 de Agosto na década de 1930, quando da passagem de uma comitiva. Foto arquivo.

Para compreender por que aquele pequeno ponto de abastecimento poderia representar uma oportunidade, é necessário olhar para a Guaramirim dos anos 1950.

Era uma cidade muito diferente daquela cortada atualmente por importantes e movimentados corredores rodoviários.

O próprio Plano Rodoviário Municipal aprovado em 1950 revela uma extensa rede de estradas ligando Guaramirim a Joinville, Luiz Alves, Massaranduba e diversas comunidades rurais. O documento ajuda a dimensionar a função do município como ponto de ligação entre localidades do Norte catarinense e do Vale do Itajaí.

A ferrovia já havia desempenhado papel decisivo no desenvolvimento local desde o início do século, mas o transporte sobre rodas avançava. Automóveis eram poucos. Caminhões começavam a ganhar importância para transportar mercadorias, produção agrícola, madeira e outros produtos.

E as condições estavam muito distantes das atuais.

Boa parte dos caminhos era formada por estradas de terra. Chuva significava barro. Morros e trechos difíceis podiam interromper uma viagem. Atolar fazia parte da rotina de quem transportava cargas.

Foi nesse ambiente que, segundo Vinícius, Genuíno passou a fazer mais do que simplesmente abastecer veículos. Um dos pontos críticos ficava na região do Brüderthal. Quando caminhões enfrentavam dificuldades, atolavam ou não conseguiam vencer determinados trechos.

“Meu pai saia para socorrer muitos motoristas atolados pelo caminho. Sua clientela forte era formada por motoristas que vinham da região do médio vale do Itajaí, que desciam a serra de Pomerode e atravessavam Jaraguá do Sul”, descreveu a filha Áurea.

Na frente do posto, era comum haver caminhões e veículos atolados e todos eram auxiliados pelo Senhor Genuíno que ajudava na retirada dos veículos.

Na prática, em uma época anterior a conceitos modernos de relacionamento com o cliente, Genuíno construía sua clientela em torno da confiança e da prestação de serviço.

O pequeno posto começava a se transformar em ponto de apoio para quem passava pela cidade.

Com o aumento do fluxo de veículos e das necessidades desses viajantes, a estrutura foi sendo ampliada gradualmente. O empreendimento acompanhava uma transformação que também ocorria ao seu redor: Guaramirim crescia, o transporte rodoviário avançava e a Rua 28 de Agosto se consolidava como o principal eixo urbano da cidade.

Fotografias e registros históricos do município mostram que a área central se desenvolveu justamente ao redor dessa via. O próprio portal municipal de turismo registra edificações históricas e atividades comerciais instaladas ao longo da Rua 28 de Agosto desde as primeiras décadas do século XX.

Os negócios prosperavam e novas áreas foram sendo adquiridas no entorno e outros empreendimentos foram incorporados à vida empresarial da família.

Um empresário integrado à comunidade

A presença de Genuíno Maiochi em Guaramirim não ficou limitada ao comércio.

Um documento oficial de 21 de novembro de 1955, pouco mais de um ano depois do marco de fundação da empresa, registra uma ação que deixou consequências até os dias atuais.

Pela Lei Estadual nº 1.383, o Governo de Santa Catarina foi autorizado a receber gratuitamente de Genuíno Maiochi e sua esposa, Rosa Maiochi, um terreno de 1.380,40 metros quadrados, situado em Guaramirim.

A finalidade estava expressamente definida na legislação: o imóvel seria destinado à construção de um Posto de Saúde.

O documento descreve inclusive a localização do terreno, tendo como uma das confrontações a Rua João Butschardt.

Décadas depois, a ligação do nome de Genuíno com a saúde pública voltou a aparecer.

Em 2023, o município inaugurou a Unidade Municipal Especializada de Saúde e Cuidado Genuíno Maiochi, destinada a atendimentos como odontologia, tratamento de feridas crônicas e saúde da mulher.

A homenagem ajuda a preservar uma dimensão importante daquele personagem. O homem que chegou a Guaramirim tentando encontrar novas possibilidades de sobrevivência econômica não se tornou apenas comerciante. Também passou a integrar a vida da comunidade que escolhera para viver.

Siro assume o posto e leva o nome Maiochi também à vida pública

Com o passar dos anos, Genuíno preparou a sucessão familiar.

Na divisão de patrimônio realizada pelo patriarca, o Posto Maiochi de Guaramirim ficou com seu filho Siro Jurandir Maiochi, que assumiu a continuidade do empreendimento.

Documentos históricos confirmam que, no final da década de 1970, Siro já era publicamente reconhecido como dono do estabelecimento. Em agosto de 1978, o jornal Correio do Povo o descreveu como proprietário do Posto Texaco, no centro de Guaramirim.

Siro Jurndir Maiochi, filho mais velho de Genuíno e pai de Vinícius. Foto: acervo da familia.

Mas Siro também seguiu uma trajetória de participação comunitária.

Nas eleições municipais de 30 de novembro de 1969, foi eleito vereador pela Arena com 453 votos, alcançando a segunda maior votação entre os candidatos ao Legislativo municipal naquele pleito.

Seu nome aparece ainda entre os vereadores que participaram, em 1972, do período de criação dos símbolos oficiais do município, incluindo a bandeira de Guaramirim.

Assim, também na segunda geração, a história do Posto Maiochi permaneceu ligada à vida comunitária da cidade.

Siro administrou o empreendimento até sua morte, em agosto de 1996, quando uma nova transição familiar começou.

Terceira geração e 30 anos sob o comando de Vinícius

Coube então a Vinícius Jurandir Maiochi, filho de Siro e neto de Genuíno, assumir a continuidade de uma história iniciada mais de quatro décadas antes.

Herdeiro do empreendimento, junto de sua irmã, Alessandra e seu irmão Juliano, Vinícius, engenheiro formado e atuando em importante grupo empresarial da região, vê a necessidade de assumir os negócios.

A empresa passa por momentos de dificuldade financeira e as instalações precisavam ser melhoradas e os desafios eram muitos, o que obrigou Vinícius a buscar, dentro de si, o espírito empreendedor de seu avô, para que o patrimônio pudesse se manter e evoluir, junto com o desenvolvimento da cidade.

Em 2026, são 30 anos desde a morte do pai e o início dessa nova etapa.

Durante esse período, Vinícius reestruturou a empresa, ampliou os negócios, adquiriu o controle acionário da empresa, junto dos irmãos e transformou o Posto Maiochi, em um empreendimento que honra o legado do avô.

O antigo rancho de Genuíno precisou acompanhar seu tempo. Mas é justamente a permanência no lugar que talvez forneça uma das imagens mais fortes dessa história.

O endereço é praticamente o mesmo ponto de observação de mais de sete décadas de transformações.

Por ali passaram os caminhões que enfrentavam barro e precisavam de ajuda para seguir viagem. Vieram depois estradas melhores, pavimentação, crescimento industrial, aumento da frota, novos bairros e a transformação de Guaramirim em uma das cidades inseridas no importante corredor econômico do Norte catarinense.

Enquanto a cidade mudava, a família (em gerações que se sucederam) permaneceu no posto. O Posto Maiochi trocou de bandeira (Texaco, Shell, Esso), mas a gestão sempre esteve sob a condução dos Maiochi, aliás, o posto mais antigo, em Guaramirim, a permanecer sob a gestão dos mesmos donos.

Genuíno iniciou. Siro continuou. Vinícius modernizou.

Vinícius Jurandir Maiocho. Terceira geração na adminsitração da empresa. Foto: guaranews.net

Essa não é apenas a história de um posto de gasolina. Ela pode contar a história de uma família empresária que atravessa mais de sete décadas da transformação de Guaramirim, justamente no período em que a cidade deixou de ser uma pequena comunidade recém-emancipada e passou a integrar um dos principais corredores industriais e logísticos de Santa Catarina.

São três gerações ligadas a uma atividade iniciada quando vender gasolina significava manter uma única bomba diante de uma estrada muito diferente da atual.

A história do Posto Maiochi ajuda, por isso, a contar também uma parte da história econômica de Guaramirim. Mostra como pequenos estabelecimentos surgidos para atender necessidades elementares de uma cidade ainda jovem puderam acompanhar seu crescimento e se transformar em empresas consolidadas.

Setenta e dois anos depois do marco de 1954, pouco resta fisicamente daquele primeiro rancho. Mas o posto continua no mesmo lugar. E continua nas mãos da mesma família.

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