A forma como o organismo distribui a gordura não é apenas uma questão estética. Fatores genéticos, hormonais e o estilo de vida influenciam onde essas reservas se concentram, e a ciência médica enxerga nesse mapa corporal um importante indicador de risco à saúde.
Especialistas ressaltam que o acúmulo localizado, por si só, não representa doença ou desequilíbrio hormonal. O ponto crucial para a medicina está na distinção entre dois tipos de tecido adiposo: o subcutâneo e o visceral.
A nutricionista Yasmim Duro, que atende no Rio de Janeiro, afirma que o perigo maior reside na gordura visceral. “A gordura localizada, isoladamente, não significa que exista um problema de saúde ou que o organismo esteja inflamado. O maior alerta está relacionado principalmente ao excesso de gordura visceral, que pode trazer riscos reais de doenças”, explica.
O tecido gorduroso atua como um órgão ativo no corpo, mas seus efeitos variam conforme a localização. A gordura subcutânea, situada abaixo da pele, funciona como um depósito energético estável, com menor liberação de ácidos graxos na corrente sanguínea, e costuma estar associada a um perfil metabólico mais neutro ou até protetor.
Já a gordura visceral, alojada na cavidade abdominal, envolve órgãos vitais como fígado, rins e intestinos. Trata-se de um tecido inflamatório e danoso: libera substâncias tóxicas e gordura diretamente na circulação do fígado, elevando o risco de diabetes tipo 2, hipertensão, esteatose hepática e colesterol alto.
O endocrinologista Wandyk Allison destaca que a anatomia do acúmulo de gordura difere entre os sexos biológicos por causa da ação hormonal. Em mulheres em idade fértil, o predomínio do estrogênio favorece o padrão ginoide, com armazenamento subcutâneo nos quadris, glúteos e coxas. Nos homens, a influência hormonal e genética direciona a gordura para a região abdominal, configurando o padrão androide.
“Áreas como abdômen inferior, flancos, quadris e coxas refletem genética, idade, composição corporal e características individuais dos receptores hormonais”, esclarece Allison. O médico ressalta, no entanto, que isso não é uma regra rígida: sono, alimentação, exercícios, medicamentos e quantidade de massa muscular também moldam esse desenho corporal.
A avaliação da saúde corporal baseada exclusivamente no Índice de Massa Corporal (IMC) tem limitações metodológicas. Como o IMC calcula apenas a relação entre peso total e altura, ele não diferencia músculo de gordura nem indica onde a gordura está depositada.
“Uma pessoa pode estar com o peso ‘ideal’ pelo IMC e, ainda assim, ter uma quantidade perigosa de gordura abdominal profunda”, alerta Yasmim Duro. Esse é o típico cenário do “falso magro”, que apresenta alto risco metabólico devido à gordura visceral combinada à pouca massa muscular.
Mudanças súbitas e repentinas na distribuição de gordura merecem investigação médica imediata, especialmente se acompanhadas de sintomas como fraqueza muscular, estrias avermelhadas ou arroxeadas, pressão alta de difícil controle e menstruação irregular.
Nesses casos, os médicos podem investigar síndromes endócrinas, como a síndrome de Cushing ou a síndrome dos ovários policísticos (SOP), além de diversas outras condições clínicas, hormonais e genéticas.
Fonte: Metrópoles





















