A participação da França na Copa do Mundo foi marcada por uma série de desentendimentos internos que envolveram atletas, equipe técnica e dirigentes da Federação Francesa de Futebol (FFF). De acordo com uma apuração do jornal L’Équipe, o clima nos bastidores foi se deteriorando ao longo da competição e teve influência direta na saída de Didier Deschamps do cargo de técnico.
Deschamps anunciou sua renúncia após a derrota para a Inglaterra na disputa pelo terceiro lugar, justificando a decisão com a existência de um ‘ambiente insustentável’ dentro do grupo. O treinador encerrou assim um período de 14 anos comandando a seleção nacional.
A primeira situação de tensão, conforme a reportagem, aconteceu ainda antes do início do torneio. O presidente da FFF, Philippe Diallo, declarou publicamente que já tinha definido o sucessor de Deschamps, mesmo com o treinador ainda no cargo. A afirmação gerou forte mal-estar na comissão técnica e levou o dirigente a emitir uma retratação oficial.
A relação entre os jogadores e a federação também foi abalada por discordâncias durante o Mundial. Kylian Mbappé precisou intervir pessoalmente para garantir a realização de sessões de crioterapia, procedimento considerado essencial para lidar com as altas temperaturas registradas nos Estados Unidos durante a competição.
Outro ponto de descontentamento foi o reajuste no valor da hospedagem para as famílias dos atletas. De acordo com o L’Équipe, os quartos que inicialmente custavam 600 euros passaram a ser cobrados por 900 euros quando a delegação se estabeleceu em Boston.
A publicação também informa que a FFF desembolsou aproximadamente 120 mil euros para transportar 13 integrantes de seu comitê executivo em classe executiva antes da partida contra a Noruega. A medida gerou críticas porque havia assentos disponíveis que poderiam ter sido cedidos aos familiares dos jogadores. Além disso, dirigentes e convidados da federação tiveram acesso a um serviço de alimentação superior ao oferecido às famílias dos atletas.
Mbappé voltou a se desentender com Philippe Diallo em relação à política de premiações. O presidente pretendia pagar bônus apenas se a França alcançasse as semifinais da Copa, proposta que foi rejeitada pelos jogadores.
‘Presidente, esta é a sua primeira Copa do Mundo; para mim, é a terceira. O senhor realmente acha que chegar às oitavas ou quartas de final não tem valor?’, teria dito Mbappé ao dirigente, conforme o jornal.
Após as negociações, o atacante conseguiu ampliar de seis para oito a quantidade de ingressos destinados a cada família e também obteve uma revisão dos valores dos bônus pagos aos atletas.
Outro caso mencionado pela reportagem envolve Mohamed Sanhadji, chefe de segurança da seleção desde 2004 e profissional muito respeitado pelo elenco. A federação abriu um processo seletivo para substituí-lo antes mesmo do início da Copa, decisão que causou surpresa entre os jogadores e intensificou o desgaste interno.
Segundo o L’Équipe, a sucessão de conflitos prejudicou profundamente o ambiente da delegação e levou Deschamps a recusar até mesmo uma homenagem pelos 14 anos à frente da seleção, encerrando seu ciclo em meio a uma das maiores crises internas vividas pelos Bleus nos últimos anos.
Fonte: O GLOBO


















