Um paciente do Hospital São José, em Joinville, tornou-se o primeiro na região Norte de Santa Catarina a receber a polilaminina, substância em fase experimental para tratar lesões na medula espinhal. A aplicação ocorreu na quinta-feira (23/7), conduzida pela equipe de ortopedia do hospital, com apoio de um neurocirurgião de Foz do Iguaçu e de um médico que cursa doutorado na pesquisa, baseada no Rio de Janeiro.
O paciente, um jovem de 21 anos, sofreu um acidente de motocicleta no domingo (19/7). No mesmo dia, foi levado ao Hospital São José, onde os médicos diagnosticaram uma lesão medular aguda completa, resultando em paraplegia — perda total da função motora e da sensibilidade nas pernas e em parte do tronco.
A irmã do paciente, Débora Souza, seguiu a sugestão de uma médica do hospital e contatou o Laboratório Cristália, fabricante da polilaminina. A substância, ainda em fase de estudos, não está disponível para venda ou no SUS. O acesso ao tratamento se dá pelo Programa de Uso Compassivo, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que permite o uso de produtos de terapia avançada em desenvolvimento.
“Eu entrei em contato com o laboratório achando que seria impossível. Eles foram atenciosos, perguntaram sobre o acidente, pediram dados do paciente, prontuário, laudo médico, tempo do acidente. Mandei isso e em menos de 30 minutos eles deram retorno dizendo que ele parecia ser elegível para receber a polilaminina”, detalhou Débora.
Com a aprovação inicial, os médicos Alberto Kazuo Miyamoto, especialista em cirurgia da coluna, e Ângelo Gubert Jacomel, ortopedista residente, ambos da equipe do hospital, reuniram a documentação e iniciaram contato com a equipe de pesquisa. “Nós temos que atender aos protocolos de inclusão no programa e somente após a aprovação da equipe de pesquisa que o medicamento é liberado para que a equipe vinculada ao programa de pesquisa venha até nós”, explicou Alberto.
Após o laboratório aprovar o paciente, o pedido de aplicação ainda foi submetido à Anvisa. Essa foi a última etapa antes do procedimento, que renovou as esperanças da família. “A gente está bem ciente da gravidade do caso, mas temos esperança de que se ele não voltar a ter todos os movimentos, que tenha autonomia no cotidiano, que a medicação consiga manter a medula saudável após ter sofrido muitas lesões. Nosso milagre a gente já recebeu porque ele está vivo e o segundo é receber a medicação. Se Deus quiser dar pra gente o terceiro milagre, que é recuperar os movimentos, a gente tem fé”, disse a irmã.
O neurocirurgião João Sarraf, que aplicou a polilaminina e integra a equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, explicou que a substância é diluída e aplicada sobre a lesão. “A gente aplicou nas duas extremidades para fazer como uma ponte para a medicação agir de forma mais eficaz”, completou. O procedimento contou com a presença de técnicos, enfermeiros e médicos do hospital.
“O Hospital São José é um hospital porta aberta, então a maioria dos traumas da região chega pra nós. Não teria outro lugar que desse pra fazer isso e a estrutura daqui permitiu que a gente executasse corretamente”, afirmou o médico Alberto Kazuo Miyamoto.
Antes da aplicação, o paciente já havia passado por uma cirurgia para fixar a fratura. Ele permanece internado em estado estável no Hospital São José, sob acompanhamento de ortopedistas e fisioterapeutas. Embora não participe formalmente do estudo clínico, os pesquisadores do Rio de Janeiro também avaliarão seus resultados.
“O procedimento representa um marco para a assistência SUS a nível de Brasil, Santa Catarina e Joinville. O Hospital São José já é referência em alta complexidade e isso mostra cada vez mais a qualidade do serviço de ortopedia prestado pelo São José”, destacou o diretor-presidente do hospital, Arnoldo Boege Junior.
A polilaminina é a versão polimerizada da laminina, uma proteína natural do corpo humano. Para produzi-la, a laminina é extraída de placentas e levada ao laboratório para formulação. Estudos indicam que a polilaminina cria uma espécie de malha que permite que os axônios — neurônios que percorrem a medula espinhal — se reconectem e restabeleçam a transmissão de comandos entre o cérebro e o corpo, possibilitando a recuperação parcial ou total dos movimentos.
Como o medicamento ainda está em fase experimental, não está disponível no Hospital São José nem em outras unidades, sendo seu uso condicionado à avaliação da equipe e autorização da Anvisa.
Fonte: Pref. Joinville




















