O mês de julho de 1916 marcou o encerramento das hostilidades da Guerra do Contestado, um dos episódios mais sangrentos do Brasil. Exatos 110 anos depois, a data resgata memórias de um conflito que devastou o planalto catarinense e envolveu disputas territoriais, messianismo e violência estatal.
A guerra estendeu-se por cerca de quatro anos, de 1912 a 1916, superando em duração a de Canudos, que durou apenas 11 meses. Enquanto Canudos se restringiu a um arraial baiano, o Contestado abrangeu uma área de 28 mil km² entre Santa Catarina e Paraná, com um saldo de mais de 10 mil mortos.
Os combates mais intensos ocorreram em Santa Catarina, envolvendo o Exército brasileiro em operações que incluíram pela primeira vez o uso de aviões militares no país. Apesar da magnitude, o conflito permaneceu por décadas esquecido nos livros escolares e foi silenciado pelas autoridades.
O resgate histórico começou em 1952, com o médico Aujor Ávila da Luz, que publicou a primeira obra sobre o tema. Posteriormente, em 1983, o governador Esperidião Amin impulsionou iniciativas oficiais de memória. Diferentemente de Canudos, que teve cobertura jornalística de Euclides da Cunha, o Contestado foi ignorado pela grande imprensa da época.
Em julho de 1916, o cenário era de terra arrasada. Os rebeldes sobreviventes, comandados pelo líder Adeodato Ramos, estavam encurralados, sofrendo com fome, tifo e o rigoroso inverno. As tropas militares adotaram a tática de queimar plantações para forçar a rendição.
Adeodato Ramos, conhecido por sua crueldade, assumiu o comando após a morte dos monges anteriores. Escondido nas matas, foi capturado em julho de 1916, quando saiu para se aquecer ao sol. Sua prisão marcou o fim efetivo da guerra.
Paralelamente, em 20 de outubro de 1916, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, os governadores Felipe Schmidt (SC) e Afonso Camargo (PR) assinaram o Tratado de Limites, mediado pelo presidente Venceslau Brás. O acordo pôs fim à disputa territorial que alimentou o conflito.
As causas da guerra são múltiplas. A principal delas foi a expulsão de posseiros pela Brazil Railway Company, que desapropriou uma faixa de 15 km às margens do rio do Peixe para construir a ferrovia. A antiga disputa de limites entre os dois estados, a exploração madeireira, a pobreza e o abandono social, além da liderança messiânica dos monges, compõem o quadro.
O Combate do Irani, em 22 de outubro de 1912, foi o estopim. Tropas paranaenses enfrentaram sertanejos liderados pelo monge José Maria, que morreu no confronto. Sua morte, longe de acalmar os ânimos, fortaleceu a crença em seu retorno e multiplicou os revoltosos.
O local do combate, o Faxinal do Irani, abriga hoje o Vale dos 21, o Cemitério do Contestado, a sepultura do monge, o Museu do Contestado e o Marco do Contestado, todos frutos do trabalho do historiador Vicente Telles.
A disputa de limites entre Santa Catarina e Paraná remontava a 1853, com raízes em uma contenda com a Argentina. Após decisões do STF em 1904, 1909 e 1910 favoráveis a Santa Catarina, o Paraná se recusou a cumprir, contribuindo para a eclosão da guerra.
O Tratado de Limites de 1916 concedeu a Santa Catarina cerca de 28 mil km² e ao Paraná 20 mil km². A controvérsia, no entanto, persistiu, com novas disputas judiciais sobre royalties de petróleo, iniciadas em 1991 pelo governador Vilson Kleinübing.
O julgamento de Adeodato Ramos ocorreu em Florianópolis, presidido pelo juiz Guilherme Willy Abry. Condenado a 30 anos, foi morto a tiros em 3 de janeiro de 1923 pelo diretor do presídio, capitão Trogílo de Melo, que alegou tentativa de fuga.
Durante o julgamento, Adeodato fez um protesto em versos, denunciando a desigualdade social. Seus versos irônicos criticavam o governo e a elite, enquanto justificava seus atos como forma de livrar os pobres da escravidão.
A bibliografia sobre o Contestado inclui obras de Aujor Ávila da Luz, Oswaldo Rodrigues Cabral, Nilson Thomé, Guido Wilmar Sassi, Godofredo de Oliveira Neto, Paulo Pinheiro Machado e Marli Auras. Dez anos atrás, foi lançado o livro “Vicente Telles, o Mensageiro do Contestado”, da Editora Insular.
Vicente Telles, natural da região, dedicou-se por mais de quatro décadas a preservar a memória do conflito. Reuniu depoimentos, visitou campos de batalha, colecionou documentos e promoveu apresentações artísticas, tornando-se o principal divulgador da história dos vencidos.
O livro biográfico mostra como Telles rompeu o silêncio sobre o Contestado, despertando o interesse de pesquisadores e jornalistas. Sua contribuição foi decisiva para que o episódio saísse do esquecimento e fosse reconhecido como um marco na história social do Brasil.
Especialistas apontam que a região do Contestado ainda carrega marcas sociais profundas, sendo uma das mais pobres de Santa Catarina. Somente nas últimas décadas começaram a surgir políticas de reparação e desenvolvimento.
A Guerra do Contestado, apesar de sua importância, continua sendo pouco estudada nas escolas. Iniciativas como a do historiador Vicente Telles buscam preencher essa lacuna, levando o conhecimento para as novas gerações.
O conflito também deixou um legado cultural, com canções, folhetos e peças teatrais que mantêm viva a memória dos caboclos. O trabalho de Telles foi essencial nesse resgate, registrando a cultura popular associada ao evento.
Atualmente, museus e monumentos, como o “Mãos de cimento” às margens da BR-153, simbolizam a luta e o sofrimento dos envolvidos. Esses espaços ajudam a contar a história que por muito tempo foi silenciada.
A rendição de Adeodato Ramos encerrou um ciclo de violência, mas as questões sociais subjacentes persistiram. A guerra expôs a fragilidade dos direitos dos posseiros e a brutalidade da expansão ferroviária.
A assinatura do Tratado de Limites, em 1916, não resolveu imediatamente os problemas da região. A demarcação das fronteiras e a distribuição de terras continuaram sendo fontes de tensão por muitos anos.
O papel da imprensa durante a guerra foi amplamente favorável aos militares, enquanto os sertanejos foram retratados como fanáticos. Essa narrativa contribuiu para o apagamento histórico das causas sociais do conflito.
Ao contrário de Canudos, imortalizada por Euclides da Cunha, o Contestado não teve um cronista de igual envergadura. Apenas décadas depois, com os trabalhos de Aujor Luz e outros, a história começou a ser contada sob a ótica dos vencidos.
A Guerra do Contestado foi, segundo historiadores, o maior conflito social rural da história republicana brasileira. Seu estudo é fundamental para compreender a formação do Brasil contemporâneo e as desigualdades regionais.
O legado da guerra permanece vivo na memória dos descendentes e na luta por reconhecimento. A data de 110 anos do fim dos combates serve como momento de reflexão sobre as feridas abertas e a necessidade de justiça histórica.
Fonte: ND+




















