A troca de críticas entre o presidente argentino, Javier Milei, e integrantes do governo brasileiro tem como pano de fundo uma comparação econômica que, vista em detalhes, surpreende. Enquanto o ministro da Fazenda do Brasil destacou indicadores desfavoráveis à Argentina, como risco-país e inflação, uma análise mais ampla revela avanços argentinos em várias frentes desde a posse de Milei.
A fala do ministro ocorreu durante entrevista a uma rádio, quando ele se referiu ao presidente vizinho de forma pejorativa e apontou diferenças negativas entre os dois países. No entanto, os números mostram que a Argentina vem se destacando em áreas como superávit fiscal, crescimento econômico e segurança pública.
Desde que assumiu o comando do país, em dezembro de 2023, Milei implementou uma série de reformas que têm surtido efeito. No Brasil, Lula está no poder desde janeiro do mesmo ano, e o governo enfrenta dificuldades para equilibrar as contas públicas e retomar o crescimento de forma sustentável.
Um dos principais feitos da gestão Milei foi o superávit primário, que encerrou 2024 e 2025 com saldo positivo equivalente a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, o cenário é oposto: o país registrou déficit primário de 0,36% do PIB em 2024 e de 0,43% em 2025, com previsões de novas perdas para os próximos anos.
O crescimento econômico argentino também supera o brasileiro. Em 2025, o PIB do país vizinho avançou 4,4%, contra 2,3% do Brasil. Esse desempenho reflete as políticas de abertura e desregulamentação adotadas por Milei, que têm atraído a atenção de investidores e organismos internacionais.
A dívida pública argentina, embora ainda alta, está em trajetória de queda significativa. Projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a relação dívida/PIB deve cair de 154,6% em 2023 para 70,4% em 2026. No Brasil, a trajetória é inversa: o indicador deve subir de 87% em 2024 para 96,5% em 2026.
No mercado de capitais, a Bolsa de Buenos Aires (S&P Merval) teve valorização de 114,91% em dólares em 2024, enquanto o Ibovespa, da B3, sofreu queda de 29,92%, o pior desempenho entre os principais índices globais. Em 2025, houve pequena recuperação do Ibovespa, mas a tendência de longo prazo mostra maior atratividade do mercado argentino para investidores estrangeiros.
A confiança na economia argentina é evidenciada pela queda do risco-país, que saiu de mais de 2.500 pontos em 2023 para menos de 500 atualmente. Em junho, o índice do JPMorgan registrou o menor nível desde 2018, e a agência Moody’s elevou a classificação de crédito do país em julho, reflexo das reformas em curso.
No campo da liberdade econômica, a Argentina tem subido posições no ranking da Heritage Foundation, com pontuação de 57,4 em 2023, um aumento de 3,2 pontos em relação ao ano anterior, o maior crescimento entre todas as nações avaliadas. O país ainda está na 106ª posição no índice global, mas a tendência de melhora é clara. O Brasil, por sua vez, ocupa a 134ª posição, com nota considerada insatisfatória em vários quesitos.
O relatório da Heritage Foundation aponta que, no Brasil, a presença do Estado na economia inibe o desenvolvimento do setor privado, e que o ambiente de negócios continua burocrático e caro, especialmente para abrir ou fechar empresas. Na Argentina, a reforma trabalhista e a desregulamentação têm contribuído para um ambiente mais favorável ao empreendedorismo.
A estrutura do Estado argentino foi drasticamente reduzida por Milei, que cortou o número de ministérios de 18 para 9 logo no início do mandato. No Brasil, são 31 ministérios, além de outros órgãos federais com status de ministério, evidenciando uma máquina pública mais pesada e onerosa ao contribuinte.
Em termos sociais, a Argentina também apresenta números melhores. Dados do Banco Mundial mostram que, em 2024, o percentual da população abaixo da linha da pobreza era de 24,1% na Argentina, contra 26,2% no Brasil. Apesar da crise herdada por Milei, o país vizinho conseguiu reduzir a pobreza nos primeiros anos de governo.
A segurança pública é outro ponto em que a Argentina se destaca. A taxa de homicídios dolosos caiu para 3,8 por 100 mil habitantes em 2024, o menor índice em 25 anos, e prosseguiu em queda no ano seguinte. Enquanto isso, o Brasil registrou 19,1 mortes violentas por 100 mil habitantes em 2025, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Os indicadores sociais e econômicos da Argentina, sob a gestão Milei, mostram que o país está em ritmo acelerado de reformas e modernização. No Brasil, a sensação é de estagnação, com avanços tímidos e retrocessos em áreas como controle fiscal e segurança.
A comparação entre as duas maiores economias da América do Sul, embora complexa, sugere que o modelo adotado pela Argentina pode inspirar o Brasil a retomar o caminho do crescimento sustentável e da estabilidade econômica.
Especialistas alertam que não se deve ignorar os problemas sociais ainda persistentes na Argentina, como os altos índices de inflação, que em 2024 foram os mais elevados da região, embora tenham apresentado forte arrefecimento em 2025 e 2026. O país ainda enfrenta desafios em áreas como infraestrutura e distribuição de renda, mas os primeiros resultados das políticas liberalizantes são animadores.
O Brasil, por outro lado, tem vantagens estruturais, como maior diversificação econômica e estabilidade institucional, mas a inércia política e a resistência a mudanças dificultam o avanço. Enquanto não houver um ajuste fiscal efetivo e uma agenda de reformas abrangente, o país tende a ficar para trás no cenário internacional.
A rivalidade histórica entre os dois países ganhou novo contorno com as declarações recentes, mas os números falam por si. A Argentina de Milei, apesar das polêmicas e críticas, está conquistando resultados concretos que merecem atenção, e o Brasil pode tirar lições valiosas dessa experiência.
Em suma, a análise dos dados evidencia que a Argentina, sob a liderança de Milei, está em um processo de transformação positiva, enquanto o Brasil parece acomodado em práticas que não respondem às necessidades da população. Cabe ao governo brasileiro avaliar as políticas em curso e considerar ajustes que possam reverter a trajetória de quedas relativas.
Fonte: Gazeta do Povo




















