O crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a reavaliar uma estratégia adotada desde o início da corrida presidencial: evitar os principais debates do primeiro turno. Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes da campanha passaram a considerar cada vez mais provável a participação de Lula no debate da TV Globo, marcado para 1º de outubro, três dias antes da votação. A informação é confirmada por apurações de outros veículos.
A CNN Brasil informou que a campanha petista deixou 30 de setembro e 1º de outubro sem compromissos públicos, justamente para permitir a preparação e a eventual presença de Lula no encontro promovido pela Globo. Até semanas atrás, a estratégia era diferente. Lula havia decidido não participar do debate da Band e avaliava que teria pouco a ganhar enfrentando sozinho candidatos majoritariamente posicionados à direita ou ao centro-direita. Em agosto, a própria Folha já registrava que a Globo poderia ser a única exceção.
O que mudou foi a matemática eleitoral. O Datafolha divulgado em 21 de setembro colocou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 36%. A distância de apenas três pontos é a menor registrada pelo instituto desde abril e configura empate técnico dentro da margem de erro. Em junho, Lula chegou a ter vantagem de dez pontos: 41% a 31%. Desde então, Flávio apresentou crescimento gradual, enquanto Lula permaneceu relativamente estável.
A mesma tendência de disputa apertada aparece em outros institutos. A Quaest de 21 de setembro mostrou Lula com 37% e Flávio com 33% no primeiro turno. No eventual segundo turno, Flávio apareceu numericamente à frente, por 42% a 41%, também dentro da margem de erro. Já a Nexus/BTG apontou Lula com 40% e Flávio com 37% no primeiro turno. No segundo, o petista marcou 46%, contra 45% do senador. Novamente, empate técnico. O Datafolha anterior também havia encontrado Lula com 46% e Flávio com 44% numa simulação de segundo turno.
Diante do cenário, a campanha petista passou a aumentar a exposição do presidente e a intensificar confrontos diretos com Flávio Bolsonaro. Além da possível ida ao debate, Lula programou atos em estados considerados estratégicos e aumentou a presença em eventos de campanha na reta final do primeiro turno. O movimento representa mudança em relação à estratégia inicial, que privilegiava agendas presidenciais, entrevistas e exposição mais controlada. A avaliação agora é de que, com Flávio encostando nas pesquisas, uma ausência no debate de maior audiência da campanha poderia significar abrir espaço para que o adversário ocupasse sozinho o palco.
A campanha de Flávio Bolsonaro também adotou uma estratégia diretamente ligada à decisão do presidente. Desde agosto, aliados do senador afirmam que ele só participará de debates dos quais Lula também participe. O coordenador político da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), chegou a resumir a estratégia: Flávio irá aos debates em que o presidente estiver presente. A justificativa é eleitoral. Sem Lula no palco, Flávio poderia tornar-se o principal alvo de candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, que disputam parte do mesmo eleitorado antipetista. Com Lula presente, a campanha do PL entende que o confronto tende a se concentrar entre os dois líderes das pesquisas. Por isso, a definição do presidente deverá influenciar diretamente a decisão de Flávio.
A participação dos dois candidatos ainda não está oficialmente confirmada. Segundo apuração da CNN nesta quarta-feira (23), as pesquisas previstas para a próxima semana deverão pesar na decisão final das duas campanhas. Se a distância continuar pequena, cresce o incentivo para que ambos participem. Para Lula, o debate pode representar oportunidade de tentar interromper o avanço do adversário. Para Flávio, pode ser a chance de transformar o crescimento registrado nas pesquisas em confronto direto com o presidente. Essas são avaliações estratégicas das campanhas, e não garantia de que o debate produzirá ganho eleitoral para qualquer dos lados.
Outro componente aumenta o risco do confronto. Lula e Flávio apresentam índices elevados e semelhantes de rejeição. No Datafolha, 47% dos eleitores disseram rejeitar cada um dos dois candidatos. Na Quaest, Flávio registrou 56% e Lula, 55%. Na Nexus/BTG, os índices foram de 50% para Flávio e 49% para Lula. Isso significa que o debate ocorrerá num ambiente altamente polarizado, em que conquistar novos votos é tão importante quanto evitar erros capazes de mobilizar a rejeição já existente.
Caso os dois confirmem presença, o debate de 1º de outubro poderá ser o primeiro grande confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro na campanha de 2026. Até agora, os dois têm travado a disputa principalmente por propaganda eleitoral, redes sociais, entrevistas e declarações públicas. A aproximação de Flávio nas pesquisas mudou os cálculos das campanhas. Para Lula, a estratégia de preservar-se dos debates tornou-se mais difícil de sustentar diante de uma diferença que caiu para poucos pontos. Para Flávio, a proximidade com o presidente tornou ainda mais importante evitar confrontos laterais com candidatos que disputam o eleitorado de direita. Faltando poucos dias para o primeiro turno, a eleição entra, portanto, em uma fase diferente. A discussão deixou de ser apenas sobre quem lidera. Passou a ser também sobre quem correrá o risco de enfrentar o adversário frente a frente quando as pesquisas mostram que praticamente não existe mais espaço confortável entre os dois.
Fonte: Redação




















