O Brasil não merece a vergonha mundial que está passando - GuaraNews
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EDITORIALO Brasil não merece a vergonha mundial que está passando

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A poucos dias de escolher o presidente da República, o eleitor ficou sem o mais tradicional confronto televisivo da campanha.

Lula decidiu não comparecer. Flávio Bolsonaro também desistiu. E, poucas horas antes do programa, decisões do TSE e do STF modificaram regras previamente acordadas entre a emissora e os partidos.

A ministra Estela Aranha proibiu a Globo de mostrar o púlpito vazio de Lula e de permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente, atendendo a pedido da coligação petista.

Gilmar Mendes, por sua vez, determinou a inclusão de Renan Santos, depois de decisões anteriores terem negado sua participação.

A Globo desistiu.

E o brasileiro perdeu.

Não se trata apenas de um debate cancelado.

É o retrato de uma campanha transformada numa sucessão de ações judiciais, decisões contraditórias, guerra de narrativas, desinformação e medidas governamentais tomadas às portas da eleição.

Nas últimas semanas, o país assistiu à circulação da informação falsa que associava Flávio Bolsonaro à retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Um servidor da própria Secretaria de Comunicação da Presidência teve restrições impostas pela Justiça após compartilhar conteúdo relacionado ao episódio mesmo depois da retratação pública.

Viu também o governo proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, medida de forte apelo popular e que imediatamente se transformou em arma eleitoral, embora o mercado tenha sido regulamentado durante a própria administração Lula.

Poucos dias antes, Lula anunciou reajuste de 15,04% do Bolsa Família, elevando o piso para R$ 691, com impacto estimado pelo próprio governo em R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027. O governo sustenta que se trata apenas de recomposição inflacionária dentro das regras fiscais; adversários enxergam evidente conveniência eleitoral no calendário.

Nada disso, isoladamente, prova ilegalidade eleitoral.

Mas tudo junto produz uma sensação perturbadora.

A de que as instituições brasileiras passaram a funcionar permanentemente no limite da tensão, enquanto decisões de enorme impacto político são tomadas em ritmo frenético nas semanas finais da campanha.

O governo Lula tem responsabilidade especial nesse ambiente porque ocupa o centro do poder.

Ao longo do mandato, o presidente repetidamente estruturou seu discurso político pela divisão social: ricos e pobres, trabalhadores e empresários, “nós” e “eles”, progressistas e conservadores.

A oposição também explora divisões próprias e alimenta a mesma lógica de confronto.

O resultado é um país em que adversários deixaram de ser tratados como concorrentes e passaram frequentemente a ser apresentados como inimigos.

Até temas que deveriam exigir serenidade — religião, segurança pública, programas sociais, crime organizado e funcionamento do Supremo — são imediatamente convertidos em instrumentos eleitorais.

O Brasil chega, assim, às urnas com a impressão de que tudo pode ser judicializado, reinterpretado ou alterado até a última hora.

Uma emissora organiza um debate, partidos assinam as regras e, horas antes da transmissão, ministros modificam suas condições.

Um candidato falta e recorre à Justiça para impedir que sua ausência seja visualmente registrada.

Outro desiste.

E o encontro desaparece da programação.

A eleição que deveria confrontar projetos de país termina discutindo quem pode subir ao palco, quem pode deixar um púlpito vazio e quais perguntas podem ou não ser formuladas.

Isso é pequeno demais para um país do tamanho do Brasil.

O episódio também repercute internacionalmente: a Reuters registrou o cancelamento do último grande debate nacional depois da ausência dos dois líderes das pesquisas e das disputas judiciais de última hora.

Não é preciso aderir a Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato para perceber o tamanho do problema.

Uma democracia saudável não deveria precisar de ministros de tribunais superiores redesenhando, poucas horas antes da transmissão, as regras de um debate jornalístico previamente negociado.

Nem deveria naturalizar campanhas dominadas por boatos religiosos, judicialização constante e medidas governamentais de grande impacto econômico lançadas às vésperas da votação.

O Brasil merece uma política em que candidatos compareçam, expliquem suas propostas, enfrentem perguntas difíceis e sejam julgados pelo eleitor.

Merece também instituições que estabeleçam regras previsíveis e as preservem.

O cancelamento do debate não é a causa da crise.

É o símbolo dela.

E talvez seja justamente essa a imagem que ficará de 2026:

um país pronto para debater o próprio futuro — e uma política incapaz de permanecer no palco.

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