Ex-atleta assume presidência da Aflodef e defende voz ativa
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INCLUSÃOEx-atleta assume presidência da Aflodef e defende voz ativa das pessoas com deficiência

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A trajetória de Jucilene Homem, 48 anos, na Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef) teve início nas quadras de basquete. Antes de chegar à presidência da entidade, ela acumulou 23 anos de experiência no esporte paralímpico, vivência que moldou sua compreensão sobre inclusão, autonomia e garantia de direitos das pessoas com deficiência.

O primeiro contato com a Aflodef ocorreu justamente como adversária. Jucilene defendia outra equipe catarinense e enfrentava a associação em competições. Em 2016, o então presidente Zezinho a convidou para integrar a instituição, inicialmente no setor de esportes. A partir desse convite, teve início uma nova etapa em sua vida.

“Minha história com a Aflodef começou em 2011, mas eu não trabalhava na entidade. Fui atleta de basquete em cadeira de rodas durante 23 anos da minha vida. Nosso primeiro contato foi dentro da quadra, como adversários, porque eu jogava em outra equipe de Santa Catarina”, recorda Jucilene, que hoje preside a associação.

O convite de Zezinho permitiu que Jucilene transportasse para dentro da Aflodef toda a experiência acumulada no esporte e, com o tempo, assumisse responsabilidades cada vez mais relevantes. Mesmo sem atuar como atleta, ela segue vinculada ao basquete e atua como auxiliar técnica do professor Pedro, coordenador da equipe da Aflodef.

A relação com o esporte permanece marcada por uma conexão pessoal intensa. “É uma paixão. Na minha visão, o esporte mudou a minha vida. Então, o esporte ainda é uma ferramenta de transformação social muito poderosa, não só para a pessoa com deficiência, mas para a sociedade como um todo”, afirma.

Primeira mulher a assumir a presidência da entidade, Jucilene converteu sua experiência pessoal em uma defesa constante da participação das pessoas com deficiência na elaboração de políticas públicas. Ela esteve à frente da instituição até 2025. Para ela, não basta criar ações voltadas a esse público: é essencial ouvir quem enfrenta cotidianamente as barreiras de acessibilidade, mobilidade e inclusão.

“As pessoas que tomam conta das nossas políticas públicas precisam nos ouvir. Muitas vezes são tomadas decisões sem o nosso consentimento. Ninguém perguntou para a gente se seria bom ou ruim”, argumenta.

Jucilene também recorre a uma metáfora para traduzir o momento atual da luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Segundo ela, os avanços obtidos ao longo dos anos representam uma passagem do inverno para a primavera, mas essa primavera ainda não floresceu completamente. “A nossa primavera ainda não chegou. Ela ainda está adormecida. Nós, pessoas com deficiência, estamos aguardando essa primavera chegar para florescer os nossos direitos e para o olhar da sociedade mudar perante a pessoa com deficiência.”

Na avaliação dela, um dos principais entraves ainda é o capacitismo — o preconceito e a discriminação baseados na deficiência. Ela defende uma mudança de perspectiva para que as pessoas não sejam julgadas por suas limitações, mas reconhecidas por suas capacidades e pelo que têm a oferecer.

Para Jucilene, o Brasil avançou de forma significativa nas últimas décadas, sobretudo quando se considera a realidade vivida pelas pessoas com deficiência no passado. No entanto, persiste uma distância considerável entre os direitos garantidos e o que ocorre efetivamente no dia a dia. “Nós estamos muito longe do nosso sonho ideal. Melhorou muito. Para mim, que nasci em 1978, chegar a 2026 com alguns avanços e conquistas é importante. Mas ainda precisamos fazer com que a população, a sociedade, abrace a nossa causa. E isso ainda não aconteceu, infelizmente.”

Ela acredita que essa transformação passa, principalmente, pela convivência e pela compreensão das barreiras que uma pessoa com deficiência enfrenta diariamente. “Um pequeno degrau pode representar uma dificuldade enorme de locomoção. A ausência de uma rampa pode impedir o acesso a um espaço público ou de lazer. São obstáculos que, para quem não vivencia essa realidade, muitas vezes passam despercebidos.”

Jucilene também chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido no debate sobre acessibilidade: as adaptações não beneficiam exclusivamente as pessoas com deficiência. “Quando a gente fala de acessibilidade, não está falando só para a pessoa com deficiência. Está falando para o idoso, para uma mulher grávida, para alguém que está com uma limitação temporária”, explica.

Ela lembra que qualquer pessoa pode, em algum momento da vida, sofrer um acidente, machucar o pé, precisar de muletas ou utilizar uma cadeira de rodas durante um período de recuperação. Por isso, na visão dela, pensar em acessibilidade significa construir uma sociedade preparada para diferentes necessidades e para as diversas fases da vida.

A trajetória de Jucilene dentro da Aflodef traduz exatamente essa transformação. A atleta que conheceu a entidade como adversária passou a integrá-la, levou sua experiência esportiva para o trabalho, assumiu responsabilidades e chegou à presidência. Sua história também ajuda a explicar a importância da própria Aflodef: um espaço que reúne esporte, convivência, trabalho, autonomia e defesa de direitos, mas que, acima de tudo, permite que pessoas com deficiência sejam protagonistas das decisões e das mudanças que dizem respeito às suas próprias vidas.

Fonte: Assembleia SC

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