A inteligência artificial generativa já está presente no cotidiano escolar e está modificando a interação entre docentes, discentes e o conhecimento. Ferramentas capazes de gerar textos, vídeos, áudios e códigos a partir de comandos ampliam as oportunidades de ensino, mas também introduzem questionamentos sobre autoria, pensamento crítico, avaliação e uso responsável da tecnologia. Esse foi um dos tópicos centrais do 7º Congresso Internacional da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE), realizado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), que reuniu pesquisadores e profissionais para analisar os efeitos da IA e das tecnologias digitais nos processos de ensinar, aprender e produzir conhecimento.
Para Eliane Schlemmer, presidente da RIEOnLIFE, a questão já não é mais se os alunos devem ou não usar inteligência artificial. O desafio, segundo ela, é entender como professores e estudantes podem empregar a tecnologia pedagogicamente, quais habilidades precisam ser desenvolvidas e quais limites devem ser estabelecidos. “Embora não seja nova, tendo surgido na década de 1950, a IA se popularizou por volta de 2022, tendo um desenvolvimento muito rápido e intenso desde então, e não tem como a educação ficar alheia a isso. E, uma vez que a gente fala de uma ação que se desenvolve ligada, conectada na vida, que é o que propõe o paradigma da educação OnLife, a gente precisa compreender essa nova tecnologia, quais são as potencialidades que ela apresenta para a educação, quais são os desafios e como ela nos obriga a olhar para os processos de ensino e aprendizagem que a gente desenvolve”, afirma.
Com pós-doutorado em Educação, com foco em inovação e cultura híbrida e multimodal, Schlemmer defende que a IA deve ser vista como uma forma de inteligência distinta da humana. Nesse contexto, cabe ao professor orientar os estudantes sobre como interagir com essas ferramentas e utilizá-las para atingir os objetivos pretendidos. “Historicamente cabia ao professor fazer as perguntas e ao aluno respondê-las. Agora o aluno também precisa saber fazer boas perguntas, elaborar um bom prompt, pois isso é necessário para que a inteligência artificial generativa ajude-o a dar forma àquilo que quer saber”, explica.
Segundo ela, a inteligência artificial pode auxiliar na produção de conhecimento, mas a avaliação das informações geradas permanece como responsabilidade humana. A expansão dessas ferramentas reforça a importância do conhecimento e da capacidade de análise crítica. “Eu acho que tudo passa justamente por educar para o uso da inteligência artificial, discutindo suas possibilidades, potencialidades e também os riscos, como os vieses dos algoritmos. O conhecimento se tornou mais importante do que nunca, porque é preciso ter criticidade para avaliar aquilo que a IA apresenta e verificar se faz sentido dentro daquilo que você pretende desenvolver. Então, nunca foi tão necessário exercer o discernimento e a capacidade humana de analisar criticamente”, destaca.
Já o professor João Velasques Paladini, que participou do painel sobre inteligência artificial na educação pública brasileira, observou que a incorporação dessas tecnologias nas escolas ocorreu primeiramente entre os estudantes, o que gerou desafios para as práticas pedagógicas tradicionais. Doutor em educação e professor dos ensinos fundamental e médio, Paladini defendeu que os docentes se adaptem à nova realidade, buscando aperfeiçoamento para utilizar as IAs como potencializadoras da aprendizagem. “A inteligência artificial já faz parte da realidade e estará cada vez mais presente na profissão docente. Por isso, quanto antes os professores se apropriarem dessa tecnologia, mais fácil será incorporá-la às práticas pedagógicas. Para isso, são importantes as formações e a participação em eventos que permitam aos docentes conhecer e utilizar essas ferramentas com mais segurança”, afirma.
Carolina Müller, doutora em linguística aplicada e ministrante de cursos sobre tecnologias digitais em sala de aula, acredita que a principal contribuição das IAs será fazer com que os alunos não apenas busquem conhecimentos, mas aprendam a construí-los. “Não dá mais para o professor, por exemplo, pedir que o aluno faça uma pesquisa sobre um determinado assunto sem apresentar uma questão que o leve à problematização. Porque essa problematização é que vai fazê-lo usar a IA de forma consciente. É preciso, portanto, ajudá-lo a usar a inteligência artificial para construir conhecimento e aprender com ela, e não apenas sobre ela”, ressalta. Além disso, Carolina afastou o temor de que a IA possa ameaçar a profissão docente. “Eu não sei como será o futuro, mas, mesmo com todas as mudanças na educação, as IAs certamente não vão substituir a necessidade da presença de um professor em sala de aula”, completa.
Além do debate pedagógico, o uso da inteligência artificial começa a ganhar espaço na legislação. No Brasil, diversas iniciativas estão sendo implementadas ou discutidas para estabelecer diretrizes para o desenvolvimento e a utilização da tecnologia, inclusive na educação. Em 2021, o governo federal publicou, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (Ebia), que define objetivos para pesquisa, inovação e uso ético da IA.
Fonte: Assembleia SC




















