DESCOBERTAEstudante baiano usa erva-doce para combater fungo do café e conquista prêmio nos EUA

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Um estudante de 17 anos de Vitória da Conquista, no interior da Bahia, desenvolveu uma solução natural para proteger grãos de café contra fungos e garantiu uma posição de destaque em uma das maiores feiras de ciências do mundo. Kenisson Morais Brito, aluno da Escola Sesi Anísio Teixeira, criou o projeto AnisGuard, que utiliza extrato de erva-doce para reduzir a contaminação fúngica após a colheita.

Os testes laboratoriais mostraram que o extrato vegetal foi capaz de eliminar 83,8% do fungo Penicillium spp., superando o desempenho de um fungicida químico usado como referência. Além da eficácia superior, o custo do tratamento com a erva-doce é até 4,3 vezes menor que o método convencional, o que pode representar uma alternativa viável para pequenos produtores.

O projeto foi apresentado na Regeneron ISEF 2026, competição realizada em Phoenix, nos Estados Unidos, onde Kenisson conquistou o 4º lugar na categoria Ciências das Plantas. A feira reuniu cerca de 1.600 estudantes de 60 países, e nove dos 21 jovens brasileiros que participaram voltaram com premiações.

O AnisGuard atua na etapa de lavagem dos grãos, logo após a colheita, quando o extrato é aplicado diretamente. Os compostos bioativos presentes na erva-doce, como anetol e estragol, têm propriedades antimicrobianas que atacam a membrana celular do fungo e interferem em seu metabolismo, dificultando a reprodução.

Uma das vantagens do extrato vegetal é a presença de múltiplos compostos ativos, o que reduz o risco de o fungo desenvolver resistência ao tratamento. Esse é um problema comum com fungicidas sintéticos, que geralmente atuam por mecanismos específicos e podem perder eficácia com o tempo.

Em testes realizados no laboratório da escola, o extrato de erva-doce reduziu a carga de Penicillium spp. em 83,8%, um índice superior ao do fungicida sintético. A pesquisa também indicou que os resíduos do processo de extração podem ser reaproveitados como nutrientes para o solo, criando um ciclo sustentável na propriedade rural.

O desenvolvimento do projeto começou na escola, com orientação de professores, e foi apresentado na Febrace, feira brasileira de ciências e engenharia realizada na Universidade de São Paulo em março de 2026. O trabalho foi premiado e selecionado para representar o Brasil na ISEF, considerada a maior competição pré-universitária de ciências e engenharia do mundo.

Para chegar até a feira internacional, Kenisson enfrentou desafios comuns a estudantes de escolas públicas, como recursos limitados e infraestrutura básica. Ainda assim, seu projeto competiu de igual para igual com trabalhos de instituições de ensino mais bem equipadas de outros países.

A viagem aos Estados Unidos também foi uma oportunidade de intercâmbio científico. Durante a ISEF, realizada entre 9 e 15 de maio, o estudante pôde compartilhar sua pesquisa com jovens de diversas nacionalidades e conhecer outros trabalhos inovadores na área de ciências das plantas.

O prêmio conquistado na ISEF incluiu US$ 600, um valor simbólico diante da relevância da pesquisa. A conquista, no entanto, tem um impacto que vai além do retorno financeiro, pois abre portas para novas oportunidades acadêmicas e profissionais.

Antes de chegar ao mercado, o AnisGuard precisa passar por mais etapas de validação. Os resultados atuais foram obtidos em ambiente controlado, e o projeto ainda requer testes de campo com volumes maiores de grãos e condições reais de armazenamento. A aprovação de órgãos reguladores como o Ministério da Agricultura e a Anvisa também é necessária para qualquer uso comercial.

Mesmo com esses desafios, os dados preliminares são considerados promissores pela comunidade científica. A combinação de alta eficácia, baixo custo e perfil ambiental favorável torna o extrato de erva-doce uma alternativa real para pequenos e médios produtores de café, especialmente em regiões onde o acesso a fungicidas sintéticos é limitado pelo preço.

A história de Kenisson é um exemplo de como a ciência pode ser feita em qualquer lugar do Brasil, desde que haja curiosidade, método e persistência. A pesquisa desenvolvida no interior da Bahia não dependeu de orçamentos milionários, mas sim de observação e dedicação.

O estudante já demonstrou interesse em aprofundar os estudos na área de biotecnologia e espera que o projeto possa futuramente beneficiar a cafeicultura brasileira. Segundo ele, a participação em feiras de ciências é uma porta de entrada para jovens que gostam de pesquisa e moram longe dos grandes centros.

Iniciativas como a Febrace têm papel fundamental na revelação de novos talentos científicos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação anunciou recentemente um investimento de R$ 40 milhões ao longo de dois anos para apoiar feiras de ciência e ampliar a participação de jovens em projetos de pesquisa no país.

O caso de Kenisson também reforça a importância de valorizar a educação técnica e o ensino público. A Escola Sesi Anísio Teixeira, onde ele estudou, ofereceu a estrutura básica necessária para que o projeto saísse do papel, mesmo com limitações.

A descoberta pode representar um avanço significativo para a cafeicultura, que enfrenta prejuízos anuais com a contaminação fúngica dos grãos. A redução da carga fúngica em quase 84% pode evitar perdas de qualidade, alterações de sabor e presença de toxinas que inviabilizam lotes inteiros para exportação.

Fonte: O Antagonista

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