A Galeria Ernesto Meyer Filho, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, recebe até 3 de setembro a exposição “Obsolescência”, da artista Marta Facco. A mostra reúne 14 pinturas a óleo, distribuídas em oito painéis, que exploram o tema do descarte e da passagem do tempo a partir de objetos abandonados nas ruas.
As obras resultam de um processo de observação cuidadosa dos restos que fazem parte do dia a dia, como móveis, colchões, cadeiras e pedaços de madeira. Segundo a artista, esses registros fotográficos não são documentos objetivos, mas sim “arquivos sensíveis” que capturam coisas que ainda existem, mas já não ocupam o centro da vida, permanecendo suspensas entre a função e o desaparecimento.
Esta é a terceira exposição do projeto da Gerência Cultural da ALESC, que selecionou seis artistas catarinenses por meio de edital lançado em 2025. Marta Facco tem formação em artes plásticas em São Paulo e Santa Maria (RS), além de mestrado e doutorado na Udesc e pós-doutorado em Portugal. Ela vive em Florianópolis, onde dá aulas de artes e mantém ateliê na Lagoa da Conceição.
O processo criativo da artista começa com a fotografia, que atua como etapa intermediária ao capturar o momento em que o objeto ainda carrega marcas de uso, mas já perdeu sua função e lugar. A partir desses registros, a pintura não busca reproduzir a cena fielmente, mas sim deslocar, recortar, ampliar e suprimir elementos, transformando a imagem em campo de sedimentação.
Na tela, Marta Facco utiliza sobreposições, veladuras e apagamentos para criar superfícies que evocam desgaste e transformação. A matéria pictórica torna-se meio de incorporação do tempo, interessando a narrativa do objeto e sua condição material: superfícies gastas, dobras, fissuras, manchas e camadas acumuladas.
O trabalho dialoga com a trajetória da artista, que investiga o ambiente doméstico, o descarte, a ruína e a memória. Ela aborda dualidades como presença e ausência, morte e vida, externo e interno, explorando afetos construídos pelos objetos da casa e temas como abandono, desprezo, solidão, descaso, violência, desmonte e ruína.
Na exposição, o descarte vira presença: aquilo que seria eliminado do campo da experiência cotidiana é reinscrito no espaço da arte, deixando de ser resto para tornar-se imagem persistente e provocativa. O que perderia função adquire presença, e a obsolescência deixa de ser apenas destino para se tornar estado, uma condição compartilhada entre matéria, memória e afeto.
O projeto consolida uma investigação continuada sobre impermanência, memória e valor, articulando prática pictórica e observação urbana como modos de compreender a experiência contemporânea. Em um tempo marcado pelo consumo imediato e pela superficialidade das relações, os objetos descartados tornam-se metáforas visíveis da vida humana, refletindo desgaste e substituição.
“O que é deixado na calçada não é apenas matéria inutilizada, mas um indício das dinâmicas que organizam a vida contemporânea: ciclos rápidos, vínculos frágeis, permanências instáveis”, resume Marta Facco, cujo processo criativo inicia-se na observação atenta da cidade.
A exposição pode ser visitada até 3 de setembro na Galeria Ernesto Meyer Filho, localizada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Fonte: Assembleia SC





















