Uma eleição decidida por quem não vota - GuaraNews
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EDITORIALUma eleição decidida por quem não vota

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A eleição presidencial de 2026 poderá ser decidida não apenas por quem votar em Lula, Flávio Bolsonaro ou nos demais candidatos.

Poderá ser decidida por quem não votar.

Em 2022, 32,77 milhões de brasileiros deixaram de comparecer ao primeiro turno. A abstenção atingiu 20,95% do eleitorado, enquanto Lula terminou aquela etapa com 48,43% dos votos válidos e Jair Bolsonaro com 43,20%.

Num cenário como o atual, em que Lula e Flávio aparecem separados por poucos pontos e nenhum deles ultrapassa com segurança os 50% dos votos válidos, a presença ou ausência de alguns milhões de eleitores pode modificar profundamente a matemática eleitoral.

Com 158,7 milhões de eleitores aptos em 2026 e uma abstenção próxima dos níveis de 2022, dezenas de milhões de brasileiros novamente poderão simplesmente desaparecer da conta final.

E essa ausência não é eleitoralmente neutra.

Ela pode atingir regiões e grupos sociais de maneira desigual.

Os números de 2022 oferecem um exemplo relevante.

No primeiro turno daquele ano, a abstenção foi de aproximadamente 19,52% no Nordeste e 19,34% no Sul. Ou seja, naquela etapa as duas regiões apresentaram níveis relativamente próximos.

Na comparação dos segundos turnos de 2018 e 2022, porém, as trajetórias foram diferentes.

No Nordeste, a abstenção caiu de 19,9% para 19,3%.

No Sul, ocorreu o movimento contrário: passou de 17,8% para 18,6%, tornando a região a única do país a registrar aumento entre aqueles dois segundos turnos.

As pesquisas mais recentes mostram Lula com vantagem expressiva no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta melhor desempenho no Sul e no Centro-Oeste.

O Nordeste concentra parcela expressiva das famílias atendidas pelo Bolsa Família e por outras políticas federais de transferência de renda. Dados oficiais mostram que, em julho de 2025, havia cerca de 7,9 milhões de famílias acompanhadas pelo programa na região, contra aproximadamente 1,5 milhão no Sul.

Isso ajuda a explicar por que políticas sociais possuem peso político e econômico diferente entre as regiões.

Abstenção envolve renda, idade, transporte, distância até a seção eleitoral, descrença política, mobilização partidária, escolaridade, saúde e uma série de outros fatores.

O dado relevante é outro:

quando um eleitorado está mais mobilizado, sua região passa a exercer proporcionalmente maior influência sobre o resultado nacional.

E quando uma parcela importante dos eleitores decide não participar, entrega aos que comparecem uma fatia maior do poder de decisão.

É possível que uma parte da crescente abstenção seja expressão de cansaço.

O brasileiro convive há anos com polarização, escândalos, conflitos entre Poderes e sucessivas crises de confiança nas instituições.

A rejeição à política existe.

Mas a matemática eleitoral não reconhece protesto silencioso.

A urna não registra o motivo de quem ficou em casa.

Ela simplesmente retira esse eleitor da divisão final.

É por isso que a eleição de domingo poderá apresentar um paradoxo.

Milhões de brasileiros poderão acreditar que, ao não comparecer, estarão recusando as opções disponíveis.

Matematicamente, porém, estarão aumentando o peso relativo do voto daqueles que decidiram participar.

Se a disputa terminar por uma margem estreita — como sugerem praticamente todos os levantamentos —, a história poderá registrar que o fator decisivo de 2026 não foi apenas a transferência de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Foi a diferença entre quem decidiu ir às urnas e quem decidiu permanecer fora delas.

Em eleições apertadas, os ausentes não desaparecem da política.

Eles apenas deixam que os presentes decidam por eles.

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