O estado de Santa Catarina se prepara para uma safra marcada pela influência do fenômeno climático El Niño, que pode ser o mais forte já registrado em 150 anos. As previsões de precipitações acima da média para a primavera já estão orientando as escolhas dos produtores rurais na região Oeste, antes mesmo do início do ciclo de verão.
Enquanto parte dos agricultores decide antecipar a semeadura do milho e intensificar cuidados com o solo, outros estão optando por reduzir os investimentos ou escolher variedades de plantas mais tolerantes à umidade. No caso do trigo, a preocupação já gerou consequências concretas: a área plantada diminuiu entre 35% e 37%, devido ao receio de prejuízos na fase de colheita.
Embora ainda haja dúvidas sobre a intensidade e a distribuição das chuvas, técnicos da Epagri enfatizam que o momento exige cautela e planejamento. O excesso de água pode prejudicar a qualidade dos grãos, complicar o trabalho no campo, favorecer o aparecimento de doenças e aumentar os custos de produção.
Conforme o analista de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri, Haroldo Tavares, a inquietação dos agricultores já é visível, especialmente em relação ao trigo. Essa cultura é colhida entre outubro e novembro, exatamente quando os modelos climáticos apontam para maior volume de chuva. Como o trigo é bastante sensível à umidade durante a colheita, períodos prolongados de precipitação podem reduzir consideravelmente a qualidade dos grãos.
Esse quadro já provocou alterações nas propriedades rurais. Segundo Tavares, a área destinada ao trigo no estado encolheu entre 35% e 37%, um reflexo direto da insegurança gerada pelas condições climáticas esperadas para a primavera com o El Niño. Ele explica que muitos produtores decidiram diminuir a área cultivada diante da expectativa de chuvas fortes no período da colheita.
Para a safra de verão, o milho é o centro das atenções. Isso ocorre porque a região Oeste responde por mais da metade da produção de leite de Santa Catarina, e o milho é fundamental para a fabricação de silagem, principal alimento volumoso para o gado leiteiro. A planta precisa de bastante água, entre 600 e 700 milímetros ao longo do ciclo, mas o excesso de chuva pode causar danos tanto no desenvolvimento quanto nas atividades de manejo.
Diante desse cenário, muitos agricultores estudam antecipar o plantio, aproveitando o período inicial permitido pelo calendário agrícola, que começa por volta dos dias 10 e 11 de agosto no Extremo-Oeste. Apesar disso, não há consenso entre os produtores sobre a melhor abordagem.
Tavares ressalta que ainda há grande incerteza sobre quando ocorrerão os maiores volumes de precipitação. Alguns devem antecipar a semeadura, enquanto outros ainda avaliam qual estratégia adotar. A soja, por sua vez, oferece maior margem de manobra, já que o plantio ocorre principalmente entre outubro e novembro, dando mais tempo para os agricultores definirem o plano de cultivo.
Muito antes da chegada das chuvas intensas, os produtores já estão reforçando práticas de conservação do solo. Entre as medidas adotadas estão a manutenção da cobertura vegetal, o uso de plantio direto, o aumento da palha sobre a superfície e a aplicação de adubos verdes nas áreas onde o trigo não foi plantado. Os especialistas explicam que essas técnicas diminuem o impacto das gotas de chuva, reduzem a erosão, melhoram a infiltração da água e ajudam a preservar os nutrientes do solo.
Além disso, os agricultores estão investindo em curvas de nível, plantio em nível e melhorias nas estradas internas das propriedades para minimizar os danos causados pelo acúmulo de água.
Outro aspecto que preocupa é o efeito do excesso de chuva no manejo das lavouras. Tavares destaca que períodos prolongados de precipitação dificultam operações como a aplicação de ureia e outros fertilizantes nitrogenados, essenciais para o crescimento do milho. A alta umidade também favorece o aparecimento e a propagação de doenças fúngicas, o que aumenta a necessidade de monitoramento das plantas e pode elevar os custos com defensivos agrícolas.
Para reduzir esses riscos, parte dos produtores está considerando usar híbridos mais tolerantes à umidade e fertilizantes de liberação gradual, que podem manter a eficiência mesmo em condições chuvosas.
A assistente de pesquisa do Epagri/Cepaf, Emile Dayara Rabelo Santana, afirma que a preocupação dos agricultores ainda é moderada, mas já interfere no planejamento para a próxima safra. A principal medida, segundo ela, é antecipar o plantio do milho sempre que o solo apresentar condições adequadas de umidade e temperatura. Já a soja deve seguir o calendário recomendado pelo zoneamento agrícola.
Em relação aos investimentos, as estratégias variam. Alguns agricultores pretendem cortar gastos para reduzir a exposição aos riscos climáticos, enquanto outros planejam investir em tecnologias que tragam mais segurança à produção, como sementes de híbridos resistentes ao excesso de água e fertilizantes mais eficientes em cenários de chuvas constantes.
Apesar das previsões de uma primavera chuvosa, os especialistas lembram que ainda não é possível saber com exatidão quando ocorrerão os maiores volumes de precipitação. Por isso, a recomendação é acompanhar regularmente as atualizações meteorológicas e adotar medidas que tornem as propriedades mais resilientes.
O momento exige planejamento, conservação do solo e manejo adequado para diminuir riscos e atenuar os possíveis impactos do El Niño sobre as principais culturas agrícolas do Oeste catarinense.
Fonte: ND+





















