O presidente Luiz Inácio Lula da Silva causou um incidente diplomático com o Paraguai ao declarar que o país vizinho “resolveu invadir o Brasil” durante a Guerra da Tríplice Aliança, conflito ocorrido entre 1864 e 1870. A afirmação foi feita durante visita à fábrica de equipamentos militares Avibras, em Jacareí (SP), enquanto defendia investimentos na indústria de defesa nacional.
Na ocasião, Lula afirmou: “A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos.”
As declarações geraram forte reação em Assunção. O Congresso paraguaio aprovou moções de repúdio, e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano informou que o presidente Santiago Peña conversou por telefone com Lula sobre o episódio. Além disso, o embaixador brasileiro no Paraguai, José Antônio Marcondes de Carvalho, foi convocado para receber uma nota oficial de protesto do governo paraguaio.
A Câmara dos Deputados do Paraguai emitiu uma declaração oficial acusando Lula de “distorcer e minimizar” a dimensão histórica da guerra e ignorar “a complexidade dos antecedentes do conflito e o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio”. O presidente da Câmara, Raúl Latorre, criticou o petista por tratar “com leviandade da maior tragédia” da história do país.
A Guerra da Tríplice Aliança, conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai, foi o maior conflito armado da América do Sul. Teve início com a intervenção do Império do Brasil na guerra civil uruguaia, interpretada pelo governo paraguaio de Francisco Solano López como uma ameaça ao equilíbrio regional. Em resposta, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e depois também a Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança.
O conflito durou cinco anos e terminou em 1870, deixando o Paraguai devastado territorial, econômica e demograficamente. Estimativas paraguaias indicam que cerca de 70% da população do país morreu durante a guerra, tornando o episódio um dos maiores traumas da identidade nacional.
O cientista político Gustavo Menon, em análise ao Metrópoles, destacou que a indignação vai além de divergências históricas. “A fala de Lula foi recebida com indignação porque toca em uma ferida histórica profunda da memória paraguaia. Ao afirmar que o Paraguai decidiu invadir o Brasil, passa a ideia de uma ação unilateral, o que foi entendido como distorção da história e minimização do sofrimento vivido pelo país”, explicou.
Menon acrescentou que, para os paraguaios, a Guerra da Tríplice Aliança representa uma catástrofe nacional, com perdas humanas massivas, devastação econômica, ocupação e um trauma coletivo que persiste até hoje. Ele ressaltou que historiadores apontam fatores como a intervenção brasileira no Uruguai e as disputas geopolíticas na Bacia do Prata como elementos fundamentais para compreender o início da guerra.
O historiador Victor Missiato, professor do Mackenzie Alphaville e especialista em América Latina, afirmou que Lula misturou um fato histórico com uma interpretação incompleta. “Do ponto de vista histórico, o presidente Lula falou meias-verdades. De fato houve a invasão do Paraguai, que dá início à guerra. Mas também havia interesses do Brasil e da Argentina em conter o avanço paraguaio na Bacia do Prata”, disse.
Segundo Missiato, a intervenção brasileira no Uruguai alterou o equilíbrio regional e influenciou diretamente a decisão de Solano López de iniciar as ofensivas. Ele acredita que a crise ficará restrita ao campo diplomático, dada a intensa dependência econômica entre Brasil e Paraguai, o Mercosul e os acordos de Itaipu. Para o historiador, o episódio é mais um incidente diplomático do que algo capaz de gerar consequências econômicas ou geopolíticas relevantes.
Fonte: Metrópoles




















