
Guaramirim completa nesta sexta-feira, 28 de agosto, 77 anos de emancipação político-administrativa. A data será marcada por um grande desfile comemorativo no centro da cidade e integra uma programação que começa hoje, quinta-feira (27), com a edição do GuaraFest e segue até domingo (30), reunindo música, cultura, gastronomia e atividades para a comunidade.
O desfile de aniversário deverá reunir mais de cinco mil pessoas, entre participantes e público. Ao todo, 91 entidades estão confirmadas, incluindo escolas, Centros de Educação Infantil, instituições públicas e privadas, organizações da sociedade civil e diferentes grupos representativos do município.
O percurso começará na Praça Cantalício Érico Flores e seguirá pela Rua 28 de Agosto até o cruzamento com a Rua João Butschardt. O palco destinado às autoridades será instalado em frente à agência do Banco do Brasil.
A Rua 28 de Agosto, que concentra parte importante da história urbana de Guaramirim, volta assim a ser o grande cenário da comemoração do município que lhe deu o próprio nome.
A data de criação e a instalação do município

Há uma particularidade histórica importante sobre o aniversário de Guaramirim.
A legislação que estabeleceu a configuração que daria origem ao município atual não foi sancionada exatamente no dia 28 de agosto.
A Lei Estadual nº 295 é de 18 de agosto de 1949. Ela transferiu para o distrito de Guaramirim a sede do então município de Massaranduba e determinou que o município passasse a se chamar Guaramirim.
Dez dias depois, em 28 de agosto de 1949, ocorreu a instalação oficial do município. É por isso que essa data se consolidou como o aniversário de Guaramirim. José Mota Pires foi nomeado o primeiro prefeito provisório, antes da eleição de Emílio Manke Júnior.
A história administrativa, entretanto, havia começado antes. Pela Lei Estadual nº 247, de 1948, havia sido criado o município de Massaranduba, formado também pelo distrito de Guaramirim. A decisão provocou insatisfação entre lideranças e moradores de Guaramirim, que defendiam a transferência da sede municipal por considerarem a localidade mais estruturada, inclusive pela presença de serviços e da ferrovia. A mobilização terminou com a mudança estabelecida pela Lei nº 295.
Mas a história do território é muito mais antiga do que os 77 anos celebrados agora.
Antes das cidades, os caminhos indígenas

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus e da definição das fronteiras municipais, a região onde hoje está Guaramirim já era ocupada e percorrida por povos indígenas.
Estudos históricos locais apontam a presença de grupos pertencentes aos grandes troncos linguísticos Macro-Tupi e Macro-Jê, que utilizavam extensas trilhas para deslocamentos, trocas, contatos entre comunidades e outras atividades.
Esses caminhos ficaram conhecidos genericamente como peabirus. A expressão de origem tupi é associada à ideia de caminho ou chão batido pela passagem constante.
O chamado Caminho de Peabiru formava uma ampla rede de rotas indígenas que antecedeu a colonização europeia. Uma de suas ramificações teria atravessado o Norte de Santa Catarina e a região correspondente ao atual território de Guaramirim. O traçado exato, contudo, não pode ser determinado com segurança, já que os caminhos foram modificados, abandonados ou incorporados a outras rotas ao longo dos séculos.
Essa característica — ser lugar de passagem — acabaria acompanhando Guaramirim durante praticamente toda a sua história.
Brüderthal e a ocupação mais organizada do território
No século XIX, o avanço da colonização europeia no Norte catarinense modificou profundamente a ocupação da região.
Guaramirim esteve relacionada ao movimento colonizador irradiado especialmente a partir da Colônia Dona Francisca, atual Joinville, e também às experiências colonizadoras de Jaraguá do Sul e Blumenau. Alemães, italianos, poloneses, açorianos e outros grupos ajudariam posteriormente a formar a composição social do município.
Um dos marcos dessa etapa foi a formação da colônia Brüderthal — o “Vale dos Irmãos”.
A comunidade foi organizada por imigrantes ligados à Igreja Moraviana. Wilhelm Lange participou da aquisição e divisão das terras, e a colônia ganhou estrutura própria no final do século XIX. Registros históricos situam a presença de Lange em Brüderthal entre 1886 e 1896.
O núcleo tornou-se uma das referências da ocupação organizada da área que posteriormente faria parte de Guaramirim.
A ferrovia muda o centro da cidade

Outro acontecimento transformaria definitivamente o desenho urbano.
Em 1910, a ferrovia chegou à região, integrando o vale à linha que ligava o Norte catarinense ao planalto e ao porto de São Francisco do Sul.
Com a construção da estação ferroviária, o eixo de desenvolvimento começou a se deslocar. A centralidade, antes mais relacionada a outras áreas de ocupação, aproximou-se do local onde atualmente está o Centro de Guaramirim.
Transporte, comércio e circulação de pessoas começaram a ganhar nova dinâmica.
Poucos anos depois, em 1913, foi criado o Núcleo Colonial Barão do Rio Branco, com quase 200 lotes rurais distribuídos por diferentes áreas, contribuindo para ampliar a ocupação do território.
De Bananal a Guaramirim
Em 2 de junho de 1919, foi criado o distrito de Bananal, então pertencente ao município de Joinville.
O primeiro intendente distrital, Agostinho Valentim do Rosário, seria nomeado em 1921. Em 1938, Bananal foi elevado à categoria de Vila.
Somente em 1944 o nome Bananal seria substituído por Guaramirim.
Cinco anos depois viria a emancipação que é celebrada atualmente.
É uma trajetória que ajuda a entender por que a história do município não começa em 1949. A emancipação representa o nascimento administrativo da cidade, mas o território já carregava séculos de deslocamentos indígenas, ocupação, imigração, agricultura, navegação fluvial, ferrovia e atividades comerciais.

GuaraFest celebra aniversário até domingo
As comemorações dos 77 anos também ganham uma dimensão regional com a GuaraFest 2026, iniciada nesta quinta-feira e programada até domingo.
O evento ocorre na Rua João Butschardt, esquina com a Rua Norberto Silveira Júnior, no Centro, com acesso gratuito. A estrutura reúne shows, apresentações culturais, exposição comercial e de animais, praça de alimentação, cervejarias, parque de diversões e atrações infantis.
Entre os destaques musicais estão os shows nacionais de Danilo & Davi, na sexta-feira (28), e Althair & Alexandre, no domingo (30), além de diversas atrações regionais.
Nesta sexta-feira, a programação da festa estará diretamente integrada ao aniversário, com atividades ao longo de todo o dia após o desfile.

77 anos e uma história muito anterior
Quando as 91 entidades entrarem na Rua 28 de Agosto nesta sexta-feira, o desfile não estará celebrando apenas uma lei ou uma data administrativa.
Estará percorrendo justamente uma das vias que simbolizam o desenvolvimento da cidade.
Da passagem dos povos indígenas pelos antigos peabirus à chegada dos colonizadores; de Brüderthal à ferrovia; de Bananal a Guaramirim; da condição de distrito à conquista da autonomia política, foram diferentes períodos que ajudaram a construir a identidade local.
Em 28 de agosto de 1949, Guaramirim passou oficialmente a conduzir seu próprio destino administrativo.
Setenta e sete anos depois, o município volta às ruas para celebrar essa trajetória — construída muito antes da emancipação e continuada por sucessivas gerações de guaramirenses.



















