Há palavras que não entram por acaso em um discurso político. Quando o presidente da República sobe a um palanque partidário, classifica adversários como “traidores” e recorda que, no passado, essas pessoas eram enforcadas, não está apenas fazendo uma crítica contundente. Está introduzindo a imagem da morte no debate político.
Foi o que fez Luiz Inácio Lula da Silva durante a convenção nacional do PDT, realizada nesta segunda-feira, 20 de julho, em Brasília. Sem mencionar diretamente os nomes dos integrantes da família Bolsonaro e dos parlamentares aos quais se referia, o presidente afirmou:
“Neste país, antigamente, traidor era enforcado, porque trair a pátria é algo muito grave. E temos hoje mais de um traidor que vai aos Estados Unidos pedir punição ao Brasil.”
A palavra “enforcado” não é inocente
Lula não ordenou literalmente que alguém fosse executado, podem alegar seus vassalos. Mas também seria ingenuidade fingir que a palavra “enforcado” não carrega uma representação explícita de eliminação física.
A escolha vocabular tem peso ainda maior porque não partiu de um cidadão anônimo em uma discussão privada. Partiu do presidente da República, diante de apoiadores, durante um evento de mobilização eleitoral.
Não é uma condenação judicial. É um julgamento moral lançado de um palanque.
A velha retórica do regime comunista genocida
A fala de Lula não surgiu em um vazio histórico. Ela recupera uma linguagem encontrada repetidamente em experiências autoritárias ligadas à esquerda revolucionária: primeiro o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente; depois passa a ser chamado de inimigo do povo, traidor, sabotador, reacionário ou contrarrevolucionário.
Quando essa transformação acontece, a divergência política deixa de ser tratada como parte da democracia. Passa a ser apresentada como uma ameaça que precisa ser extirpada.
Na União Soviética de Josef Stalin, milhões de pessoas classificadas como “inimigas do povo” foram presas, exiladas ou executadas. Os grandes expurgos não atingiram somente opositores declarados, mas integrantes do próprio partido, militares, intelectuais e cidadãos sem envolvimento em qualquer conspiração real.
Na China de Mao Tsé-Tung, a Revolução Cultural mobilizou jovens e estruturas partidárias contra supostos inimigos políticos e de classe. Autoridades, professores, intelectuais e membros do próprio Partido Comunista foram denunciados, humilhados, afastados e perseguidos em nome da preservação da pureza revolucionária.
Esses regimes não começaram suas perseguições anunciando, desde o primeiro momento, prisões em massa ou execuções. Antes da violência institucional veio a violência da linguagem. Era necessário convencer a sociedade de que determinadas pessoas não eram apenas adversárias, mas obstáculos morais ao futuro do povo.
A desumanização prepara o terreno para a repressão. Estamos no caminho do recrudescimento desse regime em que vivemos.
A América Latina conhece esse método
A mesma lógica reapareceu em diferentes experiências políticas latino-americanas. Governos autodenominados revolucionários passaram a dividir a sociedade entre representantes legítimos do povo e supostos traidores financiados pelo exterior.
Na Venezuela, investigações da missão internacional independente das Nações Unidas apontaram perseguição política, detenções arbitrárias, tortura e outras violações utilizadas para reprimir dissidentes. Em 2025, a missão afirmou que continuavam ocorrendo atos que poderiam configurar o crime contra a humanidade de perseguição por motivos políticos.
Na Nicarágua, especialistas da ONU identificaram uma política de repressão dirigida contra opositores reais ou presumidos do governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo. Foram documentados casos de prisões arbitrárias, perda de nacionalidade, exílio forçado, perseguição religiosa, vigilância e intimidação até mesmo contra pessoas que deixaram o país.









