COISA DE MÃEBaiana cria absorvente para evitar ferimentos em gastrostomizados

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Nilza Carla Leal, baiana de 47 anos, transformou a luta diária pelo bem-estar do filho em uma inovação na área da saúde. Mãe de João Pedro, um jovem de 20 anos com paralisia cerebral, ela criou um absorvente dérmico voltado para pacientes que dependem de gastrostomia — procedimento que insere uma sonda diretamente no estômago pela parede abdominal.

A ideia surgiu após Nilza enfrentar acusações de maus-tratos por causa das lesões na pele do filho, provocadas pelo vazamento de líquidos e atrito da sonda. “Eu era vista como negligente, mas ninguém entendia o desafio diário”, conta ela, que hoje é pesquisadora, técnica de enfermagem, bióloga e cursa mestrado.

Até o parto, João Pedro era considerado um bebê saudável. A demora no nascimento, segundo a mãe, causou a paralisia cerebral. “Logo percebemos algo errado: ele tremia muito e tinha dificuldade para mamar. No mesmo dia, foi levado para a UTI neonatal”, relembra. O diagnóstico definitivo veio cinco meses depois.

Para Nilza, a notícia não foi um baque. “Eu só queria ter um filho para formar uma família. Não criei expectativas além disso”, afirma. Aos 27 anos, ela deixou o emprego e o curso de administração em recursos humanos para se dedicar integralmente ao menino.

A necessidade da gastrostomia surgiu ainda na infância de João Pedro. O médico Luiz Almeida, gastroenterologista, explica que o procedimento cria um canal entre o abdômen e o estômago, permitindo alimentação e administração de medicamentos. A região da incisão exige cuidados constantes, pois o contato com suco gástrico e o atrito da sonda podem causar ferimentos.

Foi justamente por causa dessas lesões que Nilza foi acusada de maus-tratos. “Aquilo me motivou a buscar conhecimento e, depois, uma solução”, diz. Assim nasceu o JO+, nome que homenageia o filho e outros pacientes que podem se beneficiar do dispositivo.

O absorvente dérmico é uma alternativa aos materiais tradicionais, como gazes e adesivos. “Ele cobre a pele, evita o atrito e absorve o suco gástrico antes que toque a pele. Além disso, muda de cor conforme absorve, indicando o momento da troca”, detalha Nilza.

O desenvolvimento do JO+ começou em 2016. Foram dez anos de protótipos, testes de campo e registro de patente. Até agora, João Pedro e outras três pessoas já utilizaram o produto. “Cada teste foi uma lição”, conta a inventora.

A matéria-prima escolhida foi o poliuretano, um material flexível e resistente. Ele veio da China, por intermédio de um amigo brasileiro que mora lá. Apesar da importação, o custo por unidade é de R$ 4,90.

Nilza ressalta que pacientes gastrostomizados podem precisar de até seis absorventes por dia, dependendo do quadro clínico. Isso torna essencial a produção em escala para reduzir o preço. Atualmente, ela busca financiamento para iniciar a fabricação e comercialização.

O maior obstáculo são os editais de fomento, que exigem faturamento anual de R$ 100 mil — algo inviável para quem ainda não vende o produto. “Isso nos desclassifica. Precisamos pagar patente e manter o CNPJ sem ter receita. Contamos com a ajuda de amigos”, desabafa.

O futuro prevê a construção de uma fábrica própria para produzir a matéria-prima, barateando ainda mais o dispositivo. “É o meu sonho: ver o JO+ ajudando muita gente”, afirma Nilza.

Além do filho, a pesquisadora conta com o apoio da filha mais nova, Maria Júlia, de 14 anos. “Ela é uma parceira incansável. Tenho orgulho de ter voltado a estudar e de ter dito ‘não’ para quem duvidava de mim”, conclui.

O JO+ ainda não está disponível no mercado, mas a expectativa é que, com o financiamento adequado, ele possa beneficiar pacientes em todo o Brasil. A história de Nilza é um exemplo de como a necessidade pode gerar inovação.

Fonte: G1

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