O eclipse solar total desta quarta-feira (12) não é apenas um espetáculo para observadores do céu. Para a comunidade científica, o evento representa uma oportunidade única de coletar dados valiosos em poucos minutos de escuridão, como já ocorreu em ocasiões anteriores que marcaram a história da ciência.
Um exemplo clássico é o eclipse de 1919, quando o astrônomo britânico Arthur Eddington, observando a partir da costa da África Ocidental, confirmou a teoria da relatividade geral de Albert Einstein. Esse feito consagrou o fenômeno como uma ferramenta poderosa para testar ideias e expandir o conhecimento.
Nesta edição, o eclipse será visível em várias regiões do Hemisfério Norte, desde o norte da Rússia até Espanha e Portugal. Pesquisadores de diferentes áreas passaram meses se preparando para aproveitar ao máximo os breves momentos de escuridão.
Na Espanha, enquanto muitos olham para o céu, um grupo de cientistas do Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN) vai direcionar sua atenção para o chão. Eles pretendem investigar como plantas e animais reagem à repentina falta de luz solar, uma área de estudo ainda pouco explorada.
“Os impactos variam conforme o nível cognitivo de cada espécie. As reações podem ir do susto, com agrupamento e busca por locais de descanso, até comportamentos mais complexos, como observar o pôr do sol ou apontar, como fazem os chimpanzés”, explica Airam Rodríguez, pesquisador do MNCN.
Rodríguez é um dos criadores do projeto EcoEclipse, uma iniciativa pioneira na Europa dedicada a esse tipo de pesquisa. A equipe fará gravações de som ambiente nos dois dias anteriores ao fenômeno, durante o eclipse e nos dois dias seguintes, para comparar o comportamento das espécies estudadas.
“As gravações serão disponibilizadas em formato bruto para que outros cientistas possam analisar futuramente como o ruído ambiental se altera, não apenas o produzido por animais”, acrescenta o pesquisador.
O foco principal do projeto são as aves, cujos ritmos diários e sazonais são regulados pela alternância entre luz e escuridão, e os morcegos. “Sabemos ainda menos sobre os morcegos, e isso é o que torna este eclipse especial: por ocorrer ao entardecer, pode ter um efeito muito maior sobre eles”, destaca Rodríguez.
Em um eclipse solar total que ocorreu nos Estados Unidos em 2024, pesquisadores monitoraram o canto das aves e lançaram um aplicativo móvel para engajar a população na coleta de dados. O resultado foi a detecção de 52 espécies, das quais 29 mostraram mudanças significativas no comportamento vocal, incluindo silêncio, início de canto e um “falso coro do amanhecer” após o retorno do sol.
Um estudo notável publicado até o momento foi realizado em um zoológico americano durante outro eclipse, em 2017. Nos 2,5 minutos de escuridão total, os pesquisadores observaram reações de primatas, elefantes, ursos-pardos, focas, flamingos, papagaios, cacatuas e tartarugas.
Para surpresa da equipe, 76% das 17 espécies analisadas apresentaram algum tipo de reação. Algumas se engajaram em atividades noturnas, outras demonstraram ansiedade, e algumas exibiram comportamentos nunca vistos antes.
Quanto às plantas, as respostas são quase totalmente desconhecidas, embora estudos anteriores tenham tentado captar efeitos. Em 2022, observações durante um eclipse parcial no norte da Itália sugeriram que as árvores anteciparam o fenômeno, sincronizando seus sinais bioelétricos com horas de antecedência. No entanto, análises posteriores não confirmaram uma correlação clara entre eclipses e esses sinais.
“Talvez existam plantas que respondam de forma evidente aos eclipses, mas ainda não pensamos em estudá-las. Com mais de 300 mil espécies vegetais descritas, não podemos descartar essa possibilidade”, afirma a bióloga e escritora Aina S. Erice.
Na Itália, cientistas passaram semanas em laboratório finalizando um instrumento que pode revolucionar o estudo da coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol. O Espectrômetro de Fenda Circular (CISS) será testado no Observatório Astrofísico de Javalambre, na Espanha.
O objetivo é demonstrar que o dispositivo pode decompor a luz solar em seus comprimentos de onda muito mais rapidamente do que as tecnologias existentes. A coroa solar, que se torna mais visível durante um eclipse, é uma região cujo comportamento pode afetar redes de comunicação e sistemas de energia na Terra.
“Diferentemente dos espectrômetros lineares convencionais, o CISS possui uma fenda circular e pode registrar o espectro de toda a coroa a uma certa distância do centro do Sol em uma única fotografia”, explica Federico Landini, pesquisador principal do Observatório Astrofísico de Turim.
O último grande espectrômetro ultravioleta, o UVCS, operou a bordo da sonda SOHO, da Agência Espacial Europeia (ESA) e da Nasa, entre 1996 e 2013, mas precisava de muitas horas para mapear toda a coroa. Se o novo princípio óptico for validado, o próximo passo poderá ser sua aplicação em futuras missões espaciais dedicadas à observação da atmosfera solar.
Cientistas da Comissão Francesa de Energia Atômica (CEA) também aproveitarão o eclipse para estudar o campo magnético do Sol, sua atmosfera e os fenômenos intensos que podem causar perturbações na Terra. O Sol está constantemente emitindo partículas carregadas, e tempestades solares podem lançar enormes explosões de plasma ao espaço.
Quando esse material atinge o escudo magnético da Terra, pode causar falhas em satélites, riscos para astronautas e gerar auroras em altas latitudes. “Nosso trabalho busca compreender os mecanismos físicos por trás da atividade solar”, afirma Allan Sacha Brun, astrofísico da CEA, que inclui “recolocar o Sol em seu contexto na linha do tempo de sua evolução, desde o nascimento até a morte”.
A Agência Espacial Europeia (ESA) também realizará análises durante o eclipse, com foco nos ventos solares. Carole Mundell, diretora de ciência da ESA, questiona: “Por que as tempestades solares se propagam dessa forma? Qual é a sua estrutura? Podemos desenvolver modelos para prevê-las?”
A sonda Solar Orbiter, lançada em 2020, já vem coletando dados sobre a atmosfera e os ventos solares. Segundo Miho Janvier, co-investigadora principal da missão, os eclipses são uma chance de “testar o quão bons são nossos modelos, ou quão ruins”.
Outra missão da ESA, chamada Proba-3, usa três espaçonaves voando de forma sincronizada para criar minieclipses solares artificiais, permitindo estudos contínuos sem depender de fenômenos naturais.
Fonte: G1





















