Uma investigação ampla divulgada no periódico Journal of the American College of Cardiology indica que a gordura concentrada na barriga pode ser um indicador mais fiel do perigo de complicações no coração do que o índice de massa corporal (IMC) aplicado isoladamente.
O trabalho reuniu informações de quase 260 mil indivíduos e acompanhou cada um deles por um período médio de vinte anos, período no qual foram verificadas ocorrências de problemas cardiovasculares.
Os cientistas compararam as informações utilizando dois critérios antropométricos: a medida da cintura e a relação entre cintura e quadril. Essas métricas servem como referência para estimar quanta gordura está concentrada na região central do corpo.
Em seguida, eles cruzaram esses dados com as faixas clássicas do IMC, que dividem as pessoas em peso normal, sobrepeso e obesidade, para verificar se a avaliação de risco se alterava conforme a quantidade de gordura abdominal.
O resultado mostrou que acrescentar essas medições pode mudar a classificação de risco de uma parcela significativa de indivíduos que, se considerarmos apenas o IMC, seriam enquadrados em um grupo de perigo diferente do real.
Zeina A. Dardari, pesquisadora que liderou o estudo, observou que os achados reforçam a necessidade de medir a gordura na região da barriga mesmo quando o IMC indica peso adequado.
Segundo a autora, confiar somente no IMC pode resultar numa avaliação equivocada do perigo cardiovascular para muitos indivíduos, o que pode prejudicar a prevenção e o tratamento adequados.
Cristóbal Morales, que coordena a Unidade de Saúde Metabólica, Diabetes e Obesidade do Hospital Vithas Sevilla e integra a Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade, comentou o estudo sem ter participado dele. Para ele, a pesquisa reforça o que já se sabia sobre os malefícios da gordura visceral.
Morales destacou que o relevante não é apenas o número total na balança, mas principalmente onde essa gordura se acumula. A gordura visceral é a mais nociva metabolicamente, e o estudo comprova que ela aumenta o risco de eventos cardiovasculares em pessoas que não são consideradas obesas pelo IMC.
Entre os participantes com peso considerado normal pelo IMC, cerca de 5% tinham a circunferência da cintura elevada e 18% apresentavam a relação cintura-quadril alta. No grupo com sobrepeso, os percentuais subiram para 39% e 40%, respectivamente.
Já entre as pessoas com obesidade, 9% tinham uma medida de cintura baixa e 45% apresentavam relação cintura-quadril baixa. Isso indica que mesmo dentro da faixa de obesidade há uma diversidade de perfis de gordura.
Entre os indivíduos com peso normal ou sobrepeso, a presença de cintura ou relação cintura-quadril altas foi associada a um aumento de 15% a 50% no risco da maioria dos problemas cardiovasculares avaliados.
Os pesquisadores analisaram nove desfechos: infarto do miocárdio fatal e não fatal, acidente vascular cerebral fatal e não fatal, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença arterial coronariana, doença cardiovascular, morte por doença arterial coronariana, morte por doença cardiovascular e morte por qualquer causa.
Morales enfatizou que o estudo mostrou que pessoas sem obesidade, com peso normal ou sobrepeso, mas com gordura abdominal elevada, têm maior risco de sofrer esses eventos graves, o que sugere que a avaliação tradicional pode deixar lacunas importantes.
No grupo com obesidade, ter uma cintura baixa não foi associado a uma diferença significativa de risco em comparação a pessoas de peso normal com cintura baixa, com exceção da mortalidade por todas as causas, que apareceu reduzida nesse subgrupo.
Porém, entre mulheres com obesidade e relação cintura-quadril baixa, o risco de todos os desfechos continuou elevado em comparação com mulheres de peso normal e relação cintura-quadril baixa. Ainda assim, era menor do que naquelas com relação cintura-quadril elevada.
O IMC é obtido pela divisão do peso pela altura ao quadrado, mas ele não informa onde a gordura está distribuída nem a composição corporal. Já a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril são indicadores indiretos da gordura central.
Uma publicação da Comissão sobre Obesidade Clínica, com 56 especialistas globais, já defendia no início de 2025, no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, uma revisão do diagnóstico de obesidade, indo além do IMC.
Naquele documento, os especialistas destacaram que é preciso considerar medidas de gordura corporal para evitar erros de classificação. O estudo atual vem reforçar essa visão, segundo a endocrinologista Andreea Ciudin, do Hospital Vall d’Hebron.
Ciudin afirma que o principal argumento do estudo é válido quando se fala em acrescentar as medidas de cintura para melhorar a avaliação de risco, mas ela pondera que ainda não há dados suficientes para substituir o IMC por outras métricas como a relação cintura-estatura.
Ela lembra que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril não medem diretamente a gordura visceral; seria preciso usar técnicas de imagem para uma quantificação mais precisa.
Para os especialistas, uma grande vantagem dessas medidas é a praticidade. Medir a cintura é um procedimento simples e barato, e calcular a relação cintura-quadril é tão rápido quanto calcular o IMC, o que facilita sua incorporação na rotina clínica.
Ciudin ressalta, porém, que ainda faltam evidências para afirmar que reduzir especificamente a relação cintura-estatura traz melhora nos desfechos de saúde. A gestão da obesidade sempre foi centrada no peso, e o uso dessas medidas é relativamente recente.
Os autores do estudo reconhecem que se trata de uma pesquisa observacional, o que impede estabelecer causa e efeito. Além disso, não foram coletadas informações detalhadas sobre atividade física, dieta e fatores genéticos.
Outra limitação é que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril foram medidas apenas no início do acompanhamento, sem saber como elas variaram ao longo dos anos, o que poderia influenciar os resultados.
Apesar das limitações, a conclusão dos pesquisadores é clara: essas medidas são úteis para corrigir possíveis erros na classificação de risco baseada apenas no IMC.
Elas também podem agregar informações valiosas na avaliação do perigo cardiovascular em pessoas que estão nas categorias de peso normal, sobrepeso ou obesidade, auxiliando médicos e pacientes a tomar decisões mais assertivas.
Fonte: G1





















