Os Correios registraram um resultado negativo de R$ 5,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, conforme dados preliminares do balancete contábil da estatal, aos quais a reportagem teve acesso com exclusividade. Apenas entre abril e junho, o déficit acumulado foi de cerca de R$ 2,2 bilhões.
Um balancete contábil é um documento provisório que retrata a situação das contas de uma empresa em um determinado momento, geralmente ao final de um mês, trimestre ou semestre. Ele serve como um raio-x da saúde financeira da organização.
Apesar do montante expressivo, o prejuízo do semestre é inferior ao verificado nos dois períodos anteriores: o primeiro trimestre de 2026 e o último trimestre de 2025. Isso sinaliza uma leve tendência de recuperação das finanças da empresa, que enfrentou um resultado recorde negativo no início deste ano.
Até o momento, a estatal não confirmou quando divulgará oficialmente os números. Em nota, os Correios informaram que as demonstrações contábeis referentes ao primeiro trimestre ainda estão em fase de fechamento e que a empresa não comenta resultados antes da publicação oficial, seguindo os procedimentos de governança.
No acumulado até junho, as receitas totais ficaram praticamente estáveis na comparação com o mesmo período de 2025, com uma leve queda de R$ 28,2 milhões. Já as despesas caíram R$ 1,1 bilhão, o que contribuiu para reduzir o ritmo de perdas.
As receitas somaram R$ 8,18 bilhões nos primeiros seis meses de 2025 e R$ 8,16 bilhões em 2026. As despesas, por sua vez, passaram de R$ 13,5 bilhões para R$ 12,4 bilhões na mesma base de comparação.
O desempenho veio melhor do que o projetado pela própria empresa. Os Correios estimavam gastos de R$ 14,8 bilhões para o período, mas conseguiram economizar cerca de R$ 1,2 bilhão, ficando abaixo da meta interna.
Em relação às receitas, alguns segmentos específicos apresentaram avanço, mesmo com o total praticamente estável. O destaque positivo ficou com os serviços de logística prestados a empresas, que envolvem desde o recebimento do pedido até a preparação e o envio dos produtos ao consumidor final.
Esse tipo de serviço gerou R$ 423 milhões no semestre, contra R$ 205 milhões no mesmo período de 2025, um crescimento expressivo de mais de 100%.
Por outro lado, as receitas com encomendas internacionais despencaram. O segmento, que já respondeu por mais de 22% do faturamento total, agora representa apenas 4,3%, tendo arrecadado somente R$ 355 milhões no período.
Essa queda é atribuída à implementação do programa Remessa Conforme, em 2023, que passou a tributar compras internacionais de até US$ 50 com uma alíquota de 20%, conhecida popularmente como “taxa das blusinhas”. Mesmo com o fim da taxa, a redução das receitas continuou, pois o programa de conformidade permaneceu em vigor.
No que se refere às despesas, os gastos com salários, que historicamente pesam no orçamento da estatal, tiveram uma pequena redução de R$ 20 milhões no primeiro semestre de 2026, interrompendo uma sequência de aumentos. O total com pessoal atingiu R$ 5,2 bilhões no período, um valor 15% inferior ao previsto.
A economia com salários também refletiu em benefícios como planos de saúde e previdência, que ficaram R$ 260 milhões abaixo do registrado no ano anterior.
No entanto, as despesas financeiras e as provisões para perdas judiciais continuaram a pressionar as contas. As despesas financeiras cresceram 179%, saltando de R$ 590 milhões para R$ 1,6 bilhão na comparação anual. Esse item inclui juros e multas de boletos, contratos e empréstimos, como os R$ 12 bilhões captados pela empresa no fim de 2025, que devem gerar R$ 22,4 bilhões em encargos ao longo do tempo.
As provisões e perdas também avançaram 44,5%, totalizando R$ 1,6 bilhão até junho, ante R$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2025. Somente no primeiro trimestre, essas provisões foram responsáveis por R$ 1,4 bilhão do total.
Especialistas alertam que, embora haja sinais de melhora, a sustentabilidade financeira dos Correios ainda depende de medidas estruturais para conter o crescimento das despesas judiciais e reequilibrar as contas no longo prazo.
Fonte: G1





















