O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitou vista na tarde desta terça-feira (15) e interrompeu o julgamento que poderia resultar na investigação do ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi tomada durante um momento de intenso confronto verbal entre os magistrados.
Apesar da suspensão, os ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia já haviam antecipado seus votos em uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes e liderada por Dino. A proposta em análise visava unificar dois processos relacionados a Moraes e André Mendonça, com distribuição por sorteio, retirando do presidente da corte, Edson Fachin, a competência para definir relatorias.
Fux e Cármen Lúcia alinharam-se a Mendonça e Fachin, defendendo que a pauta permanecesse como estava originalmente.
O clima de tensão começou após o procurador-geral da República, Paulo Gonet, rejeitar a alegação do ministro André Mendonça sobre sua menção nas mensagens. Moraes saiu em defesa de Gonet, argumentando que o trecho citado constava apenas em uma captura de tela que não foi enviada a nenhum contato. Gonet, por sua vez, afirmou nunca ter tido qualquer relação com o banqueiro.
Após a manifestação de Gonet, Mendonça iniciou sua fala, mas foi logo interrompido por Gilmar Mendes.
“É impressionante, presidente, que uma pessoa da estatura do Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isso sim é leviandade, isso sim é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento policialesco, junto com seus delegados. É impressionante, é impressionante a desfaçatez desse sujeito”, declarou Gilmar.
Aos gritos, Mendonça exigiu respeito, ao que Gilmar respondeu com um “pode chorar”.
Diante do confronto, Dino pediu vista e solicitou que Fachin utilizasse o poder de polícia para acalmar os ânimos. Durante sua fala, Mendonça afirmou ter se sentido agredido.
“Vossa excelência está assistindo isso há horas, e está transformando o Supremo nas próximas semanas, quiçá meses, neste debate. Se vossa excelência vai assistir a isso, eu não vou, porque eu sou funcionário público deste país e tenho respeito a ele”, disse Mendonça, antes de confirmar o pedido de vista.
Dino lembrou a proximidade das eleições, classificou a sessão como “desastrada” e alertou que a situação poderia se agravar, já que seriam discutidas mensagens de Luiz Fux e Nunes Marques. Fux negou veementemente e afirmou jamais ter tido contato com o dono do Banco Master.
Na votação da questão de ordem, posicionaram-se a favor da unificação dos julgamentos e do sorteio de um novo relator os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes.
Do lado oposto, votaram para manter o caso sob relatoria de Fachin e em julgamentos separados: Edson Fachin, André Mendonça, Cármen Lúcia e Luiz Fux.
Com isso, resta apenas o voto-vista de Dino, que também deverá acompanhar Gilmar. Dias Toffoli declarou-se suspeito para julgar o caso, e Nunes Marques declarou-se impedido. Dessa forma, a questão de ordem deve terminar empatada.
A sessão extraordinária foi convocada para debater especificamente a Pet 16.662, que contém o relatório sobre as relações entre Moraes e Vorcaro, incluindo mensagens que a Polícia Federal atribui ao banqueiro e afirma terem sido enviadas ao ministro, além de contratos com o escritório Barci de Moraes e registros de reuniões.
Diante da crise, Fachin adotou uma série de medidas sobre processos sensíveis. Inicialmente, retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news, em tramitação desde 2019 e alvo de críticas de juristas, determinando a devolução dos procedimentos vinculados à Presidência. Em seguida, ordenou que processos relacionados ao caso Master e às fraudes no INSS fossem remetidos à Presidência. Fachin também assumiu formalmente a relatoria da Pet 16.662, julgada nesta terça-feira.
Frente a isso, o ministro Flávio Dino liderou um pedido para que Fachin abrisse mão das relatorias e encaminhasse os casos para sorteio. Ele chegou a defender que Mendonça deveria permanecer como relator dos dois processos que foram capturados.
A questão de ordem foi direcionada ao ministro Gilmar Mendes. Dino argumentou que o decano seria o próximo na linha sucessória, uma vez que Fachin está envolvido na discussão e Moraes, o vice-presidente, é parte no processo.
Na abertura da segunda parte, o presidente manifestou-se contra a mudança. Para ele, a relatoria é legítima e o caso deve continuar a ser julgado em seu enfoque principal.
As mensagens de Vorcaro mostram pedidos para “bloquear” e “afastar todo mal”. Em 15 de novembro de 2025, o banqueiro enviou uma mensagem questionando se deveria “estar fora” até a segunda-feira seguinte, dia em que acabou preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Vorcaro perguntou ainda se seria “aquele mesmo juiz Ricardo”. O magistrado que expediu seu mandado de prisão foi Ricardo Augusto Soares Leite, titular da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal.
Também mencionado nas mensagens, Gonet participa da sessão como procurador-geral da República. Em parecer, ele alegou haver uma “dupla nulidade” na investigação: Mendonça não poderia assumir funções próprias da investigação, e somente o Plenário poderia autorizar medidas investigativas contra um integrante do STF.
O ministro Nunes Marques declarou-se impedido. Mensagens analisadas pela PF associam o nome de seu filho, Kevin Marques, a uma referência de R$ 500 mil mensais. O ministro negou que o filho tenha prestado serviços ou recebido dinheiro do Banco Master e afirmou que jamais atuou em benefício de Vorcaro em seus julgamentos. Ao justificar o impedimento, citou sua condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o potencial impacto político-eleitoral da decisão.
Já Dias Toffoli adotou outro mecanismo e declarou-se suspeito por motivo de foro íntimo. O ministro recordou que já havia se afastado dos processos relacionados ao caso Master.
Fonte: Gazeta do Povo




















