AGRONEGÓCIOSistema global de alimentos está mais preparado para lidar com o El Niño, mas conflitos e custos altos ainda

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O cenário global de produção de alimentos mudou nas últimas décadas, e isso pode fazer diferença diante dos efeitos de um El Niño severo. A expectativa de especialistas é de que o impacto seja menor do que em eventos anteriores, mas não se pode descartar problemas pontuais.

De acordo com dados da FAO e análises de especialistas consultados pela Reuters, a produção agrícola mundial cresce de forma constante desde os anos 1980, superando o aumento da população e do consumo. Esse avanço foi puxado por melhorias em variedades de plantas, uso mais eficiente de fertilizantes, sistemas de irrigação e técnicas de proteção de lavouras.

Esses fatores elevaram a produtividade de culturas essenciais como arroz, trigo, milho e soja. Com isso, mesmo em condições de seca, é possível obter rendimentos comerciais satisfatórios, segundo Andrew Whitelaw, da consultoria Episode 3, da Austrália.

Ele ressalta que ainda existem riscos para a oferta e os preços dos alimentos, mas a preparação atual tende a tornar as consequências menos severas do que em décadas anteriores. O mundo não está imune a surpresas, mas a base é mais sólida.

O El Niño já começa a afetar o plantio em várias partes da Ásia, incluindo a Índia e o Sudeste Asiático, além da Austrália. A falta de umidade ocorre em um momento em que a escassez de fertilizantes e diesel, agravada por conflitos, aumenta os riscos para a produção agrícola.

Na Índia, a temporada de monções ficou abaixo do esperado, e na Austrália preocupa o clima seco nas principais regiões produtoras de trigo. Indonésia e Tailândia também sentem os efeitos da estiagem.

A situação pode piorar nos próximos meses, segundo Chris Hyde, meteorologista da SkyFi. O El Niño, já considerado forte, deve ganhar intensidade no quarto trimestre e no início de 2027. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico central e oriental.

Historicamente, episódios severos, como os de 1997-1998 e 2015-2016, causaram quebras de safra, escassez de alimentos, inflação e perdas econômicas. Agora, porém, o contexto é outro, com estoques mais altos e tecnologias mais avançadas.

Os estoques globais de grãos estão em níveis recordes, e isso funciona como um colchão contra perdas climáticas. Na Índia, por exemplo, as reservas de arroz são suficientes para cobrir mais de um ano das exportações mundiais do cereal.

A China detém quase metade dos estoques mundiais de trigo, o que pode reduzir a necessidade de importações caso a seca afete a produção da Austrália, um dos principais fornecedores do mercado internacional. Os estoques de óleo de palma também estão próximos de recordes.

Outro fator importante é o crescimento de novos grandes exportadores agrícolas. O Brasil se consolidou como o maior fornecedor mundial de soja, com exportações que cresceram mais de 13 vezes desde o El Niño de 1997-1998. A Rússia também ampliou sua participação no mercado de trigo, saltando de cerca de 1 milhão de toneladas exportadas para 48 milhões de toneladas no ano passado.

Essa diversificação de fornecedores ajuda a compensar perdas em uma região com produção de outra. Se uma área sofre com seca, outra pode suprir a demanda.

A tecnologia também é uma aliada. Híbridos de milho tolerantes à seca foram adotados em larga escala, e variedades de trigo resistentes ao calor ganharam espaço em países como Índia e Austrália. No Sudeste Asiático, variedades de arroz de ciclo mais curto ajudam a lidar com chuvas irregulares.

Satélites, previsões climáticas sazonais, mapas de umidade do solo e sistemas de aplicação de fertilizantes com GPS permitem que os produtores identifiquem áreas vulneráveis e usem os recursos de forma mais eficiente. Os governos também têm mais informações e podem se preparar com antecedência, como observa Maximo Torero, economista-chefe da FAO.

Plataformas baseadas em inteligência artificial estão sendo usadas para recomendar períodos de plantio e irrigação, além de auxiliar no controle de pragas e na aplicação de insumos.

Apesar de todos esses avanços, há alertas. O sistema alimentar global ainda é vulnerável a choques simultâneos, como conflitos no Oriente Médio e na região do Mar Negro, que podem comprometer os ganhos obtidos com estoques e tecnologia.

A crise no Estreito de Ormuz, por exemplo, afetou o fornecimento de combustíveis e fertilizantes. Antes do bloqueio, a passagem concentrava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo bruto e gás natural liquefeito.

Segundo Maximo Torero, os efeitos do El Niño dependerão da evolução do clima no segundo semestre de 2026 e do impacto dos conflitos na disponibilidade de insumos.

Portanto, embora o mundo tenha hoje mais estoques, tecnologia e fornecedores, a combinação de clima extremo, conflitos e custos elevados ainda pode pressionar a oferta e os preços dos alimentos no futuro próximo.

Fonte: G1

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